• 28 de agosto de 2020

    Ser você mesmo pode te frustrar!

    – Mas eu sinto que tem algo errado nisso.

    – O que poderia estar errado.

    – Eu não me sinto muito bem com essa decisão.

    – E qual o problema com isso?

    – Ora… como assim? Eu quis muito isso, deveria me sentir bem!

    – Bem, tem uma parte sua que, acredito, sente-se bem. Porém outra parte sua está avaliando a sua perda.

    – Eu não estou tendo perdas!

    – Está sim.

    – Eu quis terminar, por mim, para ser quem eu sou plenamente!

    – Eu sei, e ainda assim, “terminou”. Logo, está enfrentando uma perda.

     

    O desejo de “ser quem é” gera muitas falsas esperanças. Isso se deve porque colocamos “ser quem é” como algo místico, uma cura para todos os males e tristezas da vida. Longe de ser uma panaceia que vai distanciar você de todas as dores, “ser quem é” apenas te coloca em pleno contato com você (para o que der e vier).

    O problema central gira em torno da crença que é possível nos afastar permanentemente de sentimentos “negativos” (particularmente não gosto dessa denominação. Alguns sentimentos como tristeza, medo ou raiva podem ser desgastantes e dolorosos, mas isso não os faz “negativos”, vou usar o termo aqui apenas para ser mais comum). Essa crença faz com que muitas pessoas busquem fontes, através das quais, consigam deixar de lado esses sentimentos fazendo rituais ou criando imagens em suas mentes.

    “Ser quem é”, tornou-se uma grande promessa desse tipo de fim em nossa sociedade. Assim sendo, entendeu-se (erroneamente) que “ser quem é” e agir tal como, seria uma fórmula que faz você “acertar sempre”, e visto que você está “certo”, obviamente, nunca sentirá nada “negativo”. Porém, não é pelo fato de que estamos sendo “nós mesmos” que estamos vacinados contra a dor e frustração, por exemplo. Ao ser quem somos, abrimos mão de quem não somos. Porém, se admiramos algo “que não somos”, “ser quem somos” pode ser frustrante.

    Ser quem somos se refere a conhecer nossos limites. Mesmo quando falamos de qualidades, estamos falando em limites. Se sou inteligente, bonito e esperto, posso não ser honesto, corajoso e bem controlado. Tudo aquilo que envole a percepção do eu, também inclui a noção do “não-eu”. Logo “ser quem somos” é, inicialmente uma “perda”. Muitas pessoas querem “ser tudo” (como quem diz: quer ser sempre melhor) e isso não é possível para quem quer “ser quem é”, pois o limite do eu nos previne de sermos tudo.

    Outro ponto se refere a nossa história pessoal. Ser quem é, também significa dar conta de ter sido quem fomos. Com isso, aceitar nosso passado tal como foi também é parte fundamental para ser quem somos. Muitas pessoas tem dificuldade em relação à isso e creem que “ser quem são” significa uma rota de fuga dessas memórias. Como isso não acontece, elas precisam manter distância através da criação de uma nova pessoa que não tem aquele passado.

    Por fim, “ser quem somos” pode nos levar a sentimentos tão frustrantes e “negativos” quanto não ser quem somos. Isso porque os sentimentos “negativos” não somem por nada neste mundo (a não ser talvez uma lobotomia do hipocampo, mas isso traria muito mais danos à você, acredite). E eles não somem porque são nossos aliados evolutivos. Por este motivo, ser quem somos é a alegria e a tristeza de viver a nossa vida, sem benefícios especiais ou prejudiciais.

     

     

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