• 9 de setembro de 2020

    Não “mate” a sua saudade!

    – É difícil para mim.

    – O que é difícil?

    – Me lembro muito dele. Fico pensando nos momentos bons que passamos… daí é difícil não ligar para ele.

    – Ah, você fala de saudades né?

    – Sim, eu sinto muitas saudades dele e daí fico querendo voltar o tempo todo.

    – Mas porque voltar?

    – Porque sinto saudades.

    – Pois é. Porque você não sente as saudades ao invés de “matar a saudade”?

    – Como assim?

     

    Muitas emoções são mal compreendidas tanto em sua forma de aparecer quanto no que tange as ações que ajudam a “resolver” a emoção. A saudades, emoção típica dos povos latinos é uma delas. Uma emoção que confunde os sentidos entre separações e voltas e pode causar muita confusão.

    Um dos elementos mais difíceis de compreender sobre a saudade se refere a maneira pela qual a pessoa percebe o prazer. A maior parte das pessoas acreditam que sentir saudades é o mesmo que “matar as saudades”. Em outras palavras: que sentir saudades pressupõe buscar aquilo que “causa” a saudade. Pessoas que tem forte relação com o prazer e o tomam como a parte mais importante de suas vidas, ao sentirem saudades, geralmente tendem a acreditar que precisam se aproximar de quem sentem saudades.

    Assim, surge a crença: “se sinto saudades de alguém é porque (necessariamente) ainda gosto dessa pessoa e, portanto, preciso estar ao lado dela”. A saudade, porém, não é uma referência ou convite à ação, pelo contrário: sua função é nos mostrar aquilo que se foi. Assim, lembrarmos dos bons momentos é uma forma de registrar em nossa mente aquilo que tivemos de positivo em relação à alguém. O desejo de matar a saudades é contrário ao que esta emoção se propõe.

    Ao “matarmos a saudade”, a intenção é reviver um momento passado, porém este momento se foi. Não é possível recriá-lo (como todos que tentam matar a saudade acabam entendendo). Assim cria-se uma ilusão: de que se eu estiver com a pessoa, terei aquela sensação novamente. Isso não tem a ver com a saudade e sim com a dificuldade que a pessoa tem em lidar com o prazer. Ela imagina uma situação prazerosa e a quer à todo custo (e logo).

    O comportamento mais adequado em relação à saudade é justamente sentir o quão bom foi o passado. Saudade não se trata de futuro, mas sim de passado. Logo a atitude não é ativa e sim contemplativa. É claro que por vezes sentimos dor e tristeza ao lembrar de que algo bom não voltará mais, porém é exatamente este o exercício que a saudade determina: aprender que o passado se foi. A sensação nostálgica é importante para imprimir em nós a certeza de que o passado foi bom e que, portanto, “há esperança para o futuro”.

    Ao tomarmos o passado bom como um passado bom, é possível sentir gratidão pelo que se foi. Com isso em mente, é possível permitir que a saudade nos preencha de energia para o futuro. Não para recriar aquilo que se foi, mas, sim, para criar um novo futuro bom com alguém de alguma forma. A chave para aprender com a saudade é lembrar seu tempo de atuação: o passado. Em relação ao que se foi, a melhor alternativa é a contemplação e o desapego amoroso. Assim é possível lembrar daquilo que foi bom e se preencher com esta sensação ao invés de se esvaziar, pensando em reviver o que já foi vivido.

     

     

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