• 16 de setembro de 2020

    “Não sei lidar com isso”

    – Mas eu não sei o que fazer com isso.

    – Claro que sabe. O que você está fazendo?

    – Nada.

    – Perfeito, tente traduzir melhor, para eu entender, o que é esse “nada”?

    – É que quando ele me fala essas coisas eu fico quieta.

    – Então a sua reação é ficar calada?

    – Sim.

    – Entendi. Então você se cala. Isso é diferente de dizer: “nada”, percebe?

    – É…

    – E o que faz com que você se cale? Quero dizer: você pensa em algo ou isso é algum valor que você tem com você mesma?

    – Eu não gosto de criar brigas.

    – Entendo. Então por “não gostar de criar brigas”, você se “cala” diante do que seu namorado, às vezes, te diz, é isso?

    – Sim.

    – Então me parece que você “sabe lidar com isso”, mas talvez o resultado não seja o que você gostaria. Estou certo?

    – Sim… estou muito chateada porque eu não quero brigar, mas também não quero mais ficar ouvindo, quieta, algumas coisas.

    – Ah, perfeito! Com isso podemos trabalhar.

     

    Muitas pessoas dizem na terapia ou em sua vida pessoal: “não sei lidar com isso”, ou então: “não sei o que fazer com isso”. Porém, esta afirmação, em geral, apenas tende a esconder a maneira pela qual a pessoa já está lidando com a situação. O problema é que não fazemos uma diferença entre “não saber” e sentir-se inseguro ou achar que a resposta que já temos não é boa o suficiente.

    De certa forma não existe pessoa que “não saiba lidar” com alguma situação. Sempre damos alguma resposta à tudo o que vivemos, mesmo que essa resposta possa não ser boa para nós. Paralisia e fuga são exemplos de respostas que muitas pessoas não tomam como ações, mas que são. A questão é importante porque para uma mudança na atitude diante de alguma situação é importante sabermos o que já fazemos em relação à ela, para ser possível acessar nossas emoções e percepções sobre a situação. Quando nos dizemos: “não sei lidar” nos bloqueamos diante dessas informações.

    Tendemos a imaginar uma resposta ideal ou perfeita para tal situação. Como vemos que esta não é a nossa resposta, dizemos: “não sei lidar com isso”. Porém, o fato da resposta ideal não aparecer, não significa que não temos “alguma resposta”. Esta “alguma resposta”, em um primeiro momento é mais importante do que a tal “resposta ideal”. Isso porque a resposta que temos de pronto mostra a nossa maneira de reagir e encarar a situação. Mesmo que seja algo prejudicial à nós, é ela que pode nos mostrar o caminho da mudança e não a “resposta ideal”.

    Assim, é importante que você pare e sinta o que sente, pense o que pensa e percebe que ação você toma (mesmo que seja “não fazer nada”). Essas informações são muito mais importantes. As pessoas tendem a achar que se elas não tem o pensamento “certo” (seja lá o que isso for) ela “não pensaram nada”. Porém isso não é verdade, sempre pensamos algo sobre o que vivemos, mesmo que tenhamos medo, vergonha ou culpa em dizê-lo. Perceber o que sentimos, pensamos e a ação que daí decorre são fatores fundamentais para o processo.

    Também é útil perceber como você se sente em relação ao que já faz. Como falei acima, muitas pessoas entendem que sua reação é inadequada e, por este motivo dizem “não sei como lidar com isso”. Porém a percepção de que a reação é inadequada pode (e muitas vezes o é) ser apenas um julgamento por parte da pessoa. Em outras palavras: pensamos que nossa reação é inadequada, quando, na verdade, ela não é. Mas sentimos ela como inadequada por causa de nosso sistema de valores. Uma pessoa criada para entender que a riqueza é ruim, pode sentir que sua ambição é errada, por exemplo.

    Perceber o que fazemos do jeito que fazemos e perceber como sentimos a respostas que damos em relação à isso nos ajuda a compreender a nossa percepção do problema, de nós diante deste problema e de como acreditamos que devemos reagir à ele. Esses elementos são importantíssimos para perceber o que já fazemos e o que precisamos mudar em nossa atitude, se é que precisamos. Com isso, nossa avaliação de nossas ações se torna mais realista e focada naquilo que é possível ao invés de ficar sempre tentando alcançar metas que podem ser irrealistas ou até mesmo inadequadas.

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