• 21 de setembro de 2020

    Valores e expectativas

    – É que assim não dá!

    – Eu entendo. Tem algo aí muito importante para você, não tem?

    – Sim! Eu não quero abrir mão disso.

    – Perfeito. Agora reflita: será que existe outra forma de você fazer isso? Veja: não quero que abra mão do que quer, mas que verifique se existe apenas uma forma de alcançar isso.

    – Eu acho que deve ter… nunca pensei nisso antes.

     

    Criamos expectativas porque queremos coisas, comportamentos, eventos e relações. Sem o desejo, não haveriam expectativas. Mas as expectativas também podem relevar aquilo pelo qual prezamos: nossos valores. Prestar atenção aos valores que estão arraigados às nossas expectativas pode nos ajudar a lidar com elas de forma mais realista.

    O ato de expectativa significa a criação de uma imagem de como algo deveria ser. Tomamos, com frequência, essa imagem como uma substituição do mundo. Em outras palavras: cremos que aquilo que imaginamos deve ser o que o mundo é. Esta primeira armadilha precisa ser superada. Aquilo que queremos é apenas aquilo que queremos. Toda expectativa não retrata o mundo, mas sim, o mundo que nós queremos. Não se trata de certo ou errado, mas de perceber a diferença entre o que o mundo é e o que eu quero que o mundo seja.

    Com isso em mãos um distanciamento se faz necessário. Olho para a expectativa e entendo-a como uma possibilidade no mundo. Não como a realidade do mundo e sim uma possibilidade que desejo. Esse exercício visa tomar a expectativa como algo seu e não do mundo. A partir disso, é possível perguntar: o que é tão importante neste mundo que quero? Esta pergunta nos faz refletir sobre o que faz de nossas expectativas, expectativas. Ou ainda: o que faz com que esta forma de ver o mundo – e não outra – seja tão importante.

    Ao perceber isso é possível ir mais fundo: quais são os valores que esta minha forma de querer o mundo está tentando enaltecer? Toda expectativa contém anseios, medos e também valores. Aquilo que é importante para nós, pode, no entanto, estar distorcido quando criamos expectativas. Se, por exemplo, tenho a expectativa de um mundo mais seguro, posso estar, na verdade, usando o valor de proteção como uma forma de justificar meu afastamento do mundo. Então como o mundo “não é um lugar seguro”, me permito afastar-me dele.

    “Queria que esse lugar fosse mais organizado e eficiente”, esta é uma expectativa. O foco está localizado nos valores de eficiência e auto regulação. Olhar para estes valores pode nos fazer refletir: se esses são valores importantes para a minha pessoa, como posso aplicá-los de outras maneiras? A questão é que a realidade, muitas vezes testa a nossa forma de exercer o que é importante para nós. Muitas vezes, em consultório, as pessoas percebem que já estão tendo o que querem, mas por não ser da forma que querem, não conseguem nem perceber e nem validar.

    O questionamento não visa retirar o valor da pessoa, mas sim rever sua maneira de aplicação. Isso pode ser uma benção para muitas pessoas. Geralmente nos fechamos em uma maneira fixa de demonstrar nossas forças e virtudes. Então ao questionar as nossas expectativas, é possível criar novas formas para exercer estas mesmas forças. A pergunta pode ser: se abrir mão desse jeito de ser do mundo, que outros comportamentos eu poderia tentar exercer? Que outras formas eu poderia abrir para eu agir no mundo?

    Abraço

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