• 2 de outubro de 2020

    Amar-se é mais complexo do que parece

    – E eu percebi que eu não preciso mais ficar agradando todo mundo.

    – Que ótimo, dá um belo alívio não?

    – Sim.

    – E como é perceber as pessoas vendo você como desagradável?

    – Como assim?

    – Bem, você me disse que falou o que precisava e sentiu-se bem com isso, certo?

    – Sim.

    – E os outros a quem você falou?

    – Não sei… mas… acho que se sentiram meio mal… eu me viram como chato.

    – Perfeito. Você consegue se ver como chato?

    – Ã… difícil…

     

    Ser quem somos é estabelecer limites. Não é possível sermos tudo, por este motivo o “ser” é limitado por definição. Assim sendo, a questão do amor por si passa, necessariamente, pela evidência da incompletude, da impotência e daquilo que, por vezes, não consideramos virtuoso. Como lidar com estes aspectos de nosso eu?

    O tema da individuação (“ser quem é”) é um processo mais complexo do que parece. De maneira leviana, pensa-se que “basta” atentar para aquilo que queremos, bater o pé firme no chão e pronto: somos nós mesmo. Porém a verdade vai muito além disso, pois o “eu” é muito maior do que “aquilo que gostamos” ou os “nossos sonhos”. O eu envolve nossas limitações, anseios e incompetências. Também faz parte do eu aquilo que “não é eu”, ou seja, para “ser quem somos”, é necessário entrar em contato com “aquilo que não sou” e/ou com “aquilo que ainda não sou”.

    E então tentamos falar sobre amar a nós mesmos. Amar quem somos. Porém, ao olhar da maneira “fácil” buscamos olhar para as competências e para aquilo que fazemos de bom. Então, amamos esta parte de nós. O “gostosinho” em nós. Mas não aquilo que é amargo e duro. Rompemos com quem somos. O preço? Simples: a primeira pessoa que tornar essa faceta de nós visível, irá ruir com nossa “auto estima”. Coloco entre parênteses, pois a verdadeira auto estima inclui o amargo e duro. Ama-se o conjunto.

    Então como nos amamos ao sermos preguiçosos? Como nos amamos ao agirmos com negligência ou ao sentir emoções dúbias? Tendemos a excluir essas experiências. Dizemos “não” à elas. Este “não”, porém, nunca exclui de verdade a experiência, é. apenas, um tapar os olhos. E sabemos disso. Tememos secretamente, que alguém descubra nossos “podres”, ou fantasiamos perder uma relação com base nessas percepções. A questão do amor a si é mais profunda pois envolve ver-se como incompleto e imperfeito e amar isso.

    Este é o ato de entrega mais difícil que temos. Buscamos em todas as épocas ser algo que nunca será possível ao ser humano: perfeito. Cada qual com sua definição de perfeição, mas todos em busca dela. Olhar e amar o imperfeito é amar o que é humano. E isso não deve ser entendido em um sentido pejorativo da palavra, mas sim em um realista. Cada um de nós é limitado à sua maneira, ainda assim, todos somos limitados. Amar estes limites é amar o que podemos fazer e o que não podemos fazer e saber que isso “é bom”.

    Nathaniel Branden, psicólogo pesquisador sobre o tema da auto estima certa vez colocou que o mais difícil é admitir que nos amamos tal como somos. Esta dificuldade reside em olharmos para fora e desejarmos ser aquilo que não somos. É um misto de profunda admiração por outras pessoas confundido com a necessidade de ser assim para ser amado. Porém, de outro lado, é importante olhar para a nossa forma de ser e poder amar isso. Esta entrega, no caso à nossa experiência, é que pode “curar” muitas das feridas em nosso ser.

     

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