• 7 de outubro de 2020

    Limites: a exclusão que traz a relação

    – Eu não consigo dizer não para ele.

    – O que te impede?

    – E se ele ficar bravo comigo ou não quiser mais fazer a atividade?

    – Bem, isso é um problema não?

    – Sim!

    – E é possível, para você, aceitar que ele não queira mais? Ou que fique bravo com você?

    – Não.

    – Aqui é onde temos o problema.

     

    Muitas pessoas tem problemas com limites. Um fator comum nessa problemática envolve o fato de que limites criam exclusões. A exclusão sentida é tida por muitos de nós como algo “ruim” por si só, porém aquilo que “não faz parte” é algo essencial para a construção de relacionamentos.

    O caos é, também, o lugar onde tudo está contido, sem descriminação. O caótico não é a falta de organização, mas, antes a falta de descriminação. No caos, tudo faz parte do mesmo todo ao mesmo tempo. Quando passamos a discriminar o mundo, lhe damos nomes, formas e entendemos que algumas coisas são diferentes das outras. Pássaros são diferentes de peixes, por exemplo. Aqui temos a exclusão: o grupo dos pássaros não é o grupo dos peixes. Os peixes não são parte do grupo dos pássaros e vice versa. Esta exclusão, porém, é importante.

    A importância se dá porque ao ser diferente e excluído do grupo é que posso me relacionar de alguma maneira. Então o problema, citado acima, é na verdade, condição. Em outras palavras: para ter uma relação com o outro preciso excluí-lo da possibilidade de ser igual à eu. Se o outro é igual a eu, bem, ele é eu. Mas quando posso dizer que o outro não é eu, então posso me relacionar. Ao mesmo tempo, se o outro não é eu, então ele também possui respostas que não são minhas. E com isso é que também posso me relacionar, se as respostas são iguais, não há relação, apenas ação.

    Limites são regras. Regras dizem aquilo que é possível e o que não é. Regras criam, por sua natureza, a exclusão. Delimitam e retiram o elemento caótico. A dificuldade do humano é que ele pretende manter o caótico. Ele deseja regras, mas sem desejar aceitar a exclusão que elas criam. Ele quer dizer “não”, mas sem precisar sentir o afastamento caso ele se faça necessário a partir do não. É quando a pessoa quer, por exemplo, dizer que não quer mais se mal tratado e ao mesmo tempo manter o agressor próximo. Muitas vezes isso não é possível.

    A exclusão cria a relação. A relação implica limites e perdas. Todo ato de dar nome à algo e de criar uma regra sobre como esses elementos se relacionam implica em perdas e limites. A atitude infantil não aceita os limites enquanto deseja a regra: quer o melhor de dois mundos. Porém estes mundos são incompatíveis ao mesmo tempo. É possível, por exemplo, mudar regras, porém se você as muda o tempo todo, o fato é que não há regras.

    A atitude madura é aquela que percebe os limites e as perdas que as regras criam e as toma como parte da vida e da escolha que se faz. Assim sendo as perdas se tornam parte da vida ao invés de serem tidas como algo que atrapalha a vida. A pessoa então se torna estranhamente mais completa ao aceitar suas perdas, afinal de contas, perder também é parte da vida. E para agirmos em uma direção, perdemos as outras. Quando esta atitude se torna madura a pessoa consegue excluir sem sentir culpa e com isso passa a criar relações.

     

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