• 9 de outubro de 2020

    Como críticas afetam nossa identidade

    – Ah, crítica é algo difícil.

    – O que é difícil na crítica para você?

    – Eu não gosto… a pessoa fica me afrontando sabe?

    – É assim que você sente? Uma afronta?

    – E não é?

    – Críticas são críticas. Você pode sentir-se afrontado ou não. Me diga: você acha que você é uma pessoa “passível” de críticas?

    – Se eu posso ser criticado, você diz?

    – Sim.

    – Então… a lógica me faz dizer que sim… mas eu não me sinto assim…

     

    Muitas pessoas não gostam de receber críticas. Percebem, na crítica realizada, uma ameaça, tentativa de insulto. Essa percepção muitas vezes não tem nada a ver com as críticas em si, mas sim com a maneira pela qual a pessoa se percebe.

    Aquilo que pensamos ser organiza nossa forma de perceber o mundo. Desta maneira, uma forma básica é perceber, no mundo, aquilo que vai contra nossa identidade e o que vai a favor de nossa identificação. Se, por exemplo, me percebo como uma pessoa infalível, tudo o que puder desafiar essa percepção poderá ser sentido como uma agressão à minha identidade. Se, de outro lado, me percebo como um aprendiz, aquilo que desafia minha noção do mundo gera curiosidade e favorece minha identidade.

    Não existe uma forma “perfeita”, apenas identificações, cada qual com limites muito claros, vantagens e desvantagens dependendo do contexto, objetivo que temos na vida e do nosso repertório de comportamentos. No caso da críticas, a maneira pela qual ela vão afetar nossa identidade, varia de acordo com a identidade em questão. Tomando o caso acima como exemplo, o aprendiz pode sentir-se feliz ao receber uma crítica porque ele quer ser criticado, ele deseja que alguém veja o que ele fez e lhe diga que é possível aprender mais com isso.

    A pessoa “infalível”, de outro lado, pode sentir-se ofendida porque alguém “ousou insinuar” que ela é falível. Tenderá, neste caso, a defender-se não do que foi dito, mas, sim, da emoção que lhe causou ter sido confrontada. Críticas, nada mais são do que opiniões. Estas, podem nos revelar algo importante ou nem tanto. O fato está em ser capaz de ler a crítica apenas em termos do seu conteúdo e não da emoção que sentimos ao recebê-la. Porém, para termos este tipo de atitude, já significa que nos abrimos para ser uma pessoa “capaz de receber críticas”.

    O ponto, então é: a maneira pela qual me percebo me torna alguém que é passível de receber críticas ou não? Se a concepção que tenho da minha pessoa aceita críticas, tenderei a percebê-las como algo “natural”. De outro lado, se não me permito receber críticas, a tendência é vê-las como ameaças ao ego. Neste artigo estou tratando do tema de forma bem dual (aceito x não aceito), pelo fato deste ponto ser o que mais causa impacto em nossa identidade.

    A identidade que não aceita críticas, termina por ser altamente limitada em termos de suas relações, pois toma como afronta as possíveis contribuições que os outros tem para dar. A aceitação de outro lado, não envolve em ser a-crítico em relação às críticas. É interessante notar, mas a melhor maneira de se relacionar com críticas é ser crítico em relação à elas. Ou seja: avaliar se o que está sendo dito em termos do seu conteúdo é algo relevante. Caso seja, isso pode enriquecer a identidade ao invés de enfraquecê-la.

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