• 14 de outubro de 2020

    Ser coisa ou ser gente?

    – Mas e porque eu faria isso?

    – Porque não?

    – Pode ser que não dê certo.

    – O que seria “dar certo”?

    – Ah, você sabe. O pessoal olha, gosta, se aproxima…

    – “todo mundo me ama”

    – Todo mundo me ama… tipo isso.

    – Entendo. Porém, para que isso é importante para você?

    – Porque eu quero ser lembrado né?

    – Lembrado? Ou celebrado?

     

    O sociólogo Zygmunt Bauman em sua extensa análise sobre nossa sociedade atual mostrou que as pessoas se identificam com objetos de consumo. Esta análise profunda e dura se evidencia cada vez mais nos consultórios e mostra suas consequências nefastas sobre a individualidade e a criação das relações “humanas”.

    É uma compreensão sutil e difícil, porém importante para quem deseja manter uma boa saúde mental. Vivemos em uma sociedade de consumo, pensamos em termos de consumo e nos colocamos como consumidores dos outros e produtos de consumo dos outros. Por isso é tão difícil falar sobre isso: ao mesmo tempo pensamos que é algo habitual e “normal”. A atitude de sentir-se como produto reflete profundos medos sobre abandono, perda de identidade e até mesmo falta de sentido para a vida.

    Tornar-se “coisa” (ou produto) é assumir que valemos apenas aquilo que pode ser mostrado para os outros e avaliado por eles afim de gerar “engajamento”. É quando a relação de admiração do outro vale mais do que aquilo que realmente sentimos ou pensamos sobre as características que procuramos enaltecer. Tornar-se produto é compreender que o outro é mais importante e apenas através de seu olhar sou algo ou alguém. É derramar-se para fora, buscando sempre algo rápido e fugaz, para começar a buscar novamente.

    Esta atitude, porém, não pode ser vista com desprezo. Ela é a busca da resposta da pergunta: “quem sou?”. Como Bauman coloca a modernidade traz esta pergunta, mas falha em responder. O consumismo é, para o bem ou para o mal, uma tentativa de responder essa pergunta: sou um produto que os outros gostam e “compram”. Preciso ser desejado para o consumo, senão serei descartado. O medo do descarte, segundo o mesmo autor, é o maior medo das pessoas na atualidade.

    Tornar-se “gente”, de outro lado, me parece ser a corajosa atitude de aceitar o descarte e a exclusão. Saber-se como um “produto inacabado”, que, por esta condição, é imperfeito e passível de descarte. Compreender este descarte como parte das relações humanas e não como uma saída delas confere à pessoa que busca ser “bicho humano” um lugar diferente: o lugar da espontaneidade. Afinal de contas, produtos podem ser bem acabados, mas eles são assim: acabados, definidos, finitos (ou finados). O bicho gente não, ele é inacabado, pois é vivo.

    Ao mesmo tempo a coragem cobra um preço: a solidão. Ser gente bicho também é sentir-se só e, por esta razão, perceber o profundo valor da conexão com outros. Não se trata o outro como a salvação, mas sim, com o desejo de conexão. O desejo de sentir pele com pele, ouvir o som da voz e partilhar “humanidades”. Perceber-se só, nos mostra que precisamos de nós e dos outros. Nenhum se resume no outro, apenas se complementa e, por esta razão, se precisa inteiro, mesmo que inacabado. Ser gente, por fim, é reconhecer este “por vir” que somos, aquele ser que é, apenas porque busca aquilo que ainda não é e que deseja ser: completo, espero eu.

    Abraço

     

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