• 19 de outubro de 2020

    Amarras profundas

    – Eu fiz algo sobre o que conversamos na última sessão.

    – O que foi?

    – Em uma reunião com o pessoal do trabalho, eles me designaram uma tarefa e eu disse que preferia não fazer isso.

    – Ah é? E o que aconteceu depois?

    – Bem, todos me olharam, porque eu nunca recuso nada, e daí falaram: “ok” e passaram para outra pessoa. Daí eu disse que eu preferia fazer outra parte do processo.

    – Perfeito e isso foi aceito?

    – Sim, dessa vez foi até porque todo mundo sabe que eu faço isso bem lá.

     

    Algo fascinante quando se estuda o comportamento humano é perceber que elementos muito simples conseguem estruturar dinâmicas muito complexas. O poder que determinadas relações e a maneira que elas se dão afetam nossas vidas durante muito tempo e de formas muito variadas. Perceber isso é, também, o primeiro passo em poder fazer algo com isso.

    São coisas simples as que mais importam. Penso assim já faz muito tempo pelo fato de que as “coisas simples” são as que mais ocorrem e as que tem o maior poder de se tornarem “desapercebidas”. Aquilo que se torna habitual tem um enorme poder sobre nossas vidas e apenas coisas simples conseguem assumir esta forma. Em nossas relações com pais, irmãos e amigos estabelecemos estes minúsculos comportamentos que geram grandes redes de funcionamento. São nessas vivências que começamos a criar amarras profundas.

    Imagine, por exemplo, uma criança que tem em um dos pais uma pessoa que tem medo de ser pai porque percebe nisso “o fim de sua vida”, um pensamento comum hoje em dia. Com isso, este genitor poderá, por exemplo, olhar para seu filho com medo e um comportamento quase imperceptível de afastamento poderá provocar nessa criança uma sensação estranha de que este genitor “não está ali para ela”. Especialmente quando se compara com o outro genitor que pode estar mais aberto. Então, a criança poderá: ficar confusa, ou negar uma das realidades e tomar a outra como certa ou ainda achar que faz algo errado para um dos genitores.

    Estes pequenos pensamentos são reforçados ao longo do tempo pelo medo que existe em um genitor e pela abertura que há no outro: “não sei porque, mas minha mãe está sempre ali pra mim, já meu pai é meio distante”. Ao longo dos dias a criança busca mais pelo pai (um dos rumos possíveis), ela se esforça para agradá-lo, esse comportamento, no entanto, gera ainda mais medo no pai que sente que, caso se jogue muito no filho, perderá o pouco que resta de sua individualidade. Assim sendo, cria-se um jogo de “gato e rato”, quanto mais o filho corre, mais o pai corre.

    Ao longo dos anos, a pessoa não sabe o que fez de errado, mas começa a perceber que várias de suas relações são assim. Ela, por fim, compreendeu que precisa concertar algo nela, que há algo errado. Assim começa a tentar adivinhar o que vai dar errado na próxima relação e tenta “remediar” isso mesmo antes de acontecer alguma coisa. Este medo que ela então assume se torna uma superproteção da relação que termina por afastar os outros. E assim ela recria uma situação conhecida por ela com seu pai.

    Tudo isso criado por pequenos comportamentos, quase invisíveis. Prestar atenção à pequenos detalhes de nosso comportamento é muito mais importante do que desejar focar em “grandes mudanças”. Perceber estes detalhes nos ajuda a perceber sua história, seus sistemas de feedback e com isso é que conseguimos mudar algo. Não precisamos de grandes mudanças porque grandes tragédias ocorrem nos pequenos detalhes, e é neles que existe o maior poder de criação e recriação de nossas histórias.

    Abraço

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