• 18 de novembro de 2020

    Criticar a vida ou vivê-la?

    – Mas e como que eu vou fazer isso?

    – Com a sua ação.

    – Não sei… não acho que sou…

    – Bom o suficiente?

    – Sim, algo assim… se eu errar, por exemplo?

    – O que tem?

    – Não sei… é difícil.

    – Que tal aprender?

    – É ruim saber que isso pode ocorrer.

    – Bem, fico feliz de saber que posso aprender com um erro, mas como isso soa para você?

    – Eu acho que é um atestado de incompetência.

     

    A sociedade do “sempre melhor” aprendeu a tornar o indivíduo uma pessoa sempre doente, carente e inacabada. A pessoa passa a olhar apenas para o futuro, para aquilo que crê lhe faltar e nunca consegue assumir a vida que já tem e as capacidades que já possui. Não é de se estranhar que tantas pessoas deixem seus talentos adormecidos e não vivam a vida.

    Tenho ouvido muito em meu consultório: “o meu potencial”. Acho louvável que as pessoas tenham crença em si mesmas e em suas competências, ao mesmo tempo, creio que torná-las ato é tão ou mais importante do que apenas ter ciências delas. O fato é que na sociedade do “sempre melhor”, as competências pessoais sofrem um processo de endeusamento que faz as pessoas se afastarem da ação ao invés de ir em direção à ela. Este é um dos problemas causados pela comercialização da auto estima.

    A partir do momento em que a pessoa percebe que tem algum potencial, passa a criar cenários de sucesso em sua mente. Até aí nada errado, porém, tudo emperra neste cenário. O fato que faz tudo emperrar é a realidade. A pessoa crê que tudo o que ela precisa é crer em si, o resto vem por si. Isso não é um fato, na maior parte das vezes até com muito esforço e condições favoráveis precisamos de sorte. E então a pessoa se frustra, ou melhor: se desilude, perde uma ilusão que criou sobre o mundo. E então o que faz? Reclama e se encolhe. Ela diz “não” para a vida como ela é.

    Quando isso ocorre a pessoa também diz “não” para si, mesmo sem saber. Este não é profundo e sutil, ele mina as forças para a ação das formas mais invisíveis: preguiças, planejamentos feitos “sempre no momento errado”, e outras “coincidências” que sempre tem o mesmo efeito: freiam a ação.  É uma atitude de arrogância diante da vida: o desejo de ser mais do que ela, em crer que nossa percepção fantástica sobre nós é melhor do que a vida ou suficiente diante dela, o desejo de viver sem o trabalho de viver.

    Aquele que critica a vida, não se percebe como parte dela, não se vê menor que ela. Assim sendo, acha que a vida deveria servi-lo de alguma maneira. A realidade não basta para essa pessoa que deseja um mundo feito para ela. Se arroga o direito de ditar normas e de se esconder da vida quando estas não ocorrem. Porém esta arrogância o afasta de suas próprias competências, de seu “verdadeiro” potencial. Acontece que o potencial, só existe enquanto ação e esta segue as normas do mundo. Quem se curva diante disso vai adiante, quem deseja se engrandecer perece.

    O mundo pode não ser fácil, mas ele é. Existimos nele e seguimos suas regras. Isso não se trata de escolha ou desejo, é a condição da vida, nada mais. Se aceitamos que falhas ocorrem, que somos limitados pelo que  podemos fazer e que a ação é mais importante que o potencial conseguimos ir além. Saímos da atitude de criticar o mundo antes de agir nele e, com isso, podemos transformar algo de fato. Tomamos a ação em mãos e isso nos leva adiante.

     

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