• 25 de novembro de 2020

    O valor do passado

    – É que eu não quero mais ser assim!

    – Não quer mais fazer isso, você quer dizer?

    – Sim!

    – Imagine este comportamento na sua frente, como se ele fosse uma pessoa.

    – Ok.

    – Diga à ele agora: “vá embora, não quero mais você”.

    – “Vá embora! Nunca mais quero te ver”.

    – Perceba o que sente…

    – Me sinto triste… uma angústia surge no meu peito…

    – Isso. Este comportamento está aí por alguma razão. Quem sabe podemos tentar ouvir o que ele tem a dizer ao invés de nos livrar dele?

    – Sim.

    – Diga isso: “quero ouvir você”.

    – “Quero ouvir você”

    (A pessoa chora)

     

    Um desejo comum para quem busca terapia é “se livrar” de determinados comportamentos. Embora o desejo pareça “justo”, pois vários comportamentos acabam trazendo muito problemas, esta demanda deixa algo de lado: o que motivou o comportamento a surgir em primeiro lugar? Esta pergunta é muito importante e deve sempre ser vista.

    Nenhum comportamento surge por acaso. Nossas ações não são causadas por vírus que nos picam e passamos a agir de uma determinada maneira. Assim sendo, todo comportamento é criado em determinado contexto, seguindo regras e motivações próprias daquele momento. O problema é que muitos são criados em um momento no qual temos poucas escolhas para fazer, somos dependentes de terceiros e não entendemos bem o mundo. Assim sendo, criamos comportamentos com poucos recursos e eles se mostra ineficazes ou até problemáticos ao longo de nossa vida.

    Ao mesmo tempo, estes comportamentos foram criados para uma finalidade. Esta ainda se mantém ativa mesmo durante muitos anos, porque, em geral, trata de necessidades vitais como: ser amado, ser aceito na família ou pertencer à um grupo. Assim sendo, estas necessidades não podem ser negligenciadas. O problema, então, surge porque queremos “apagar” o comportamento, mas sem perceber que este comportamento visa nos garantir algo muito importante do qual não queremos – mesmo que sem perceber – abrir mão.

    É como se nosso cérebro se perguntasse: “ok, você que parar de fazer isso, mas como vamos ser amados por todos se você parar de fazer isso?”. Esta pergunta não é clara, mas seu poder nos mostra o quanto é difícil abrir mão de determinados comportamentos. Isso porque eles assumem o valor de sobrevivência para nós. Mas, o que fazemos com isso, então? A questão é olhar de uma maneira mais ampla e incluir mais elementos na equação para poder vê-la como um todo. Em geral apenas vemos o resultado atual e queremos algo novo, mas isso é pequeno demais e não funciona.

    Quando se coloca este tipo de comportamento num contexto mais amplo, percebendo o momento no qual ele foi criado e os motivos que nortearam sua criação, em geral as pessoas sentem alívio e uma sensação de que “não estão fazendo algo errado” – e de fato não estão. Este é um dos efeitos da aceitação do comportamento “problemático”, ou seja, entendê-lo dentro de um contexto e não como um bode expiatório. Com isso, se tornam possíveis outros movimentos muito mais interessantes do que “cortar fora” determinado comportamento.

    Entre eles, está dar um novo enquadre para a situação. Quando somos pequenos sentir-se amado é algo que depende muito dos pais e do contexto imediato, quando adultos, podemos ver além. Perceber isso nos ajuda a flexibilizar novos comportamentos. Além disso, podemos perceber o que nos era importante e continua sendo, organizando, então, novos comportamentos para dar conta das antigas motivações. Isso é algo mais interessante porque mantém o comportamento antigo. Essa manutenção é importante porque ele pode ser útil em algum contexto diferente daquele no qual foi gerado e assim, integramos e evoluímos.

     

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