• 27 de novembro de 2020

    Sobre “ignorar”

    – Mas o que eu queria é ignorar isso, sabe?

    – Sei, mas não dá né?

    – Não…

    – Então, o que se faz?

    – Não sei… eu queria mesmo não sentir isso!

    – Sim, eu sei. Agora, como seria não sentir algo que você sente?

    – Ótimo?

    – Não sei… no que você estaria se envolvendo se não sentisse isso?

    – Hum… eu ia ficar com ele e ficar de boa.

    – “De boa”, bem, se você não sentisse esse menosprezo dele, estaria ficando com ele, sim, e ao mesmo tempo não percebendo que é maltratada. Agora, de que forma isso seria “de boa” para você?

    – Não sei…

     

    O desejo de ignorar algo é a fantasia de que se eu não perceber algo, algo não existe. Com isso a pessoa se coloca numa armadilha que pensa ser um paraíso: ao não sentir ela apenas rompe o contato com sua vida e natureza, pensando que está sendo forte. Esta pseudo força tem um custo muito mais alto do que você pode imaginar.

    Ignorar é não conhecer, não perceber a presença de algo, não ter experiência ou conhecimento sobre algo. Quem ignora dificilmente está em vantagem em relação à algo. Porém, mesmo assim, cremos no ato de ignorar como algo que nos dota de poderes especiais. Muito disso se dá pelo fato de como nos sentimos mal quando somos ignorados por alguém, porém, isso é apenas uma fantasia.

    A ignorância só existe em forma pura, ou seja, quando de fato desconheço algo sobre alguma coisa ou alguém. Se sei não ignoro, desprezo. Para o desprezo existir é necessário haver o conhecimento de algo – que é desprezado. Assim sendo, gostaríamos de desprezar muitas pessoas e situações acreditando que, com isso, poderíamos machucá-las de alguma maneira, fazendo uma “desforra” sobre elas.

    Porém, quando ignoramos algo desta maneira nos fazemos cegos. Forçamos uma cegueira que não é real. Esta cegueira provocada nos faz muito mal. Isso porque precisamos agir – afim de manter a encenação – que realmente estamos sentindo algo que está longe da verdade. Mascarar esta verdade durante muito tempo cria uma cisão em nós e isso só nos prejudica.

    Ocorre que o desejo de ignorar é uma forma de esquiva ou fuga. Parece que aquele que despreza é forte, mas não é este o caso. A força vem de encarar uma situação e saber o que fazer com ela. Fingir desprezo é muito diferente, é forçar uma situação irreal afim de obter o afastamento do confronto com aquela situação e isso não é força, é fraqueza.

    Então quando nos esquivamos, não nos tornamos fortes, mas, sim, fracos. Sair de perto da realidade é o que nos enfraquece. Buscar a mentira do desprezo falso ao invés da realidade dura a ser enfrentada faz com que o investimento de nossa energia seja em algo que não cria nada, mas sim desfaz e afasta. O desprezo só é “bom” quando é verdadeiro e neste caso, a distância criada é exatamente o que a pessoa precisa, assim sendo, ele é positivo.

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