• 4 de dezembro de 2020

    Desapegar-se

    – Eu não consigo fazer isso?

    – E o que você consegue fazer?

    – O mesmo de sempre, baixar a cabeça e fingir que está tudo bem.

    – Para ter o novo comportamento, o que é preciso deixar ir do antigo?

    – Não fazer mais?

    – Não se trata disso. Há uma emoção vinculada ao comportamento. Ele, por si só, não é problemático a questão é o valor associado à ele, pense nisso.

    – Entendo… é que é como se, ao baixar a cabeça eu fosse uma “pessoa boa” sabe?

    – Sim, está pronto para deixar isso de lado? Ser uma pessoa “ruim”?

    – Não sei.

     

    Desapego é uma palavra que entrou em moda quando o assunto é “evolução pessoal”. Porém compreender a natureza do desapego é algo mais importante ainda. Boa parte das pessoas confunde o desapego com livrar-se de coisas ou hábitos. O foco recai no hábito e na coisa, porém desapegar-se não tem a ver com isso, esta é a consequência do desapego.

    Como a palavra já diz, desapego trata em retirar um apego, uma emoção ou sentimento que nos vincula à algo de uma forma específica. Assim o ponto central do ato de desapegar-se tem a ver com a emoção que cria o vínculo e não com a coisa, pessoa, lugar ou situação. Em outras palavras, é possível manter um hábito, relação ou coisa e ainda assim desapegar-se dela. Algumas pessoas, por exemplo, jogam algo fora, mas continuam apegadas a isso, passam o tempo todo pensando naquilo e mantém a mesma emoção diante daquilo que foi descartado.

    Então, em primeiro lugar, não confunda desapego com descarte. São coisas bem diferentes. Ao focar no desapego, em primeiro lugar é importante conhecer o apego. Se quero mudar meu sentimento por algo, primeiro preciso saber o que sinto. Toda emoção ou sentimento tem a ver com ações, dessa forma, é importante, também, reconhecer o tipo de motivação que nos liga à algo. Posso sentir-me seguro ao baixar a cabeça, pois quando criança, aprendi que ao fazer isso os outros se apiedavam de mim. Então, meu sentimento é segurança e a motivação tem a ver com “manipular” os outros nesse sentido.

    Compreender a motivação é compreender o que faz com que o objeto de nosso apego seja importante para nós. Perceber a emoção vinculada ao objeto é o que nos abre a visão para a motivação. De posse disso é que se torna possível desapegar-se. O processo trata do reconhecimento de que o objeto de nosso apego é apenas um objeto. Fui eu quem colocou a carga emocional sobre este objeto e não ele quem é detentor disso. Assim sendo o desapego é o processo de tomar novamente para si as energias que eram depositadas em algo externo.

    “Retiro o apego de…” este é o sentido em desapegar-se. Vejo o objeto de meu apego apenas como um objeto, sem os valores e condicionamentos que criei sobre ele. Ele volta a ser apenas ele. O eu, por sua vez, se torna mais forte, no sentido em que resgata a energia depositada. Se vê com novas possibilidades de escolha. Um erro aqui é perceber que a pessoa se torna “livre”. O ato de apegar-se é um exercício de liberdade tanto quanto o ato de desapegar-se. A liberdade não reside em fazer tudo, mas em perceber os limites que nos cercam diante das escolhas que fazemos.

    Por fim, a relação com o objeto de apego se transforma a partir do desapego. Aqui é importante a ressalva de que a relação se transforma em algo diferente. Não nos desapegamos do objeto e sim dos afetos e condicionamentos que nós mesmos criamos nele. Ao fazer isso e ver o objeto de apego de outra maneira, podemos recriar a relação. Esta é a diferença entre desapego e descarte. No segundo jogamos fora e ponto. No primeiro mudamos a relação e isso é onde reside o verdadeiro potencial transformador do desapego.

    Para finalizar, uma história Zen que fala sobre isso: Diz o aprendiz: “mestre, estou muito feliz, me desapeguei de tudo nesta vida, estou completamente livre”. Diz o mestre: “ok, desapegue-se disso”, ao que o aprendiz retruca: “mas mestre, eu me desapeguei de tudo já”, ao que o mestre responde: “ok, então fique com isso”.

    Abraço

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