• 7 de dezembro de 2020

    Raízes das emoções

    – Eu não gosto de me sentir assim.

    – Não gosta ou não quer?

    – Não quero.

    – Quando foi que sentiu-se assim antes?

    – Ah eu me lembro de quando era pequeno e as pessoas tiravam sarro de mim.

    – Entendo. E elas tiravam sarro porque?

    – Ah, essas coisas bobas… não sei, pensando agora nem parece grande coisa, tirar sarro quando fazia algo errado.

    – Algo que aos seus olhos de adulto você acha normal, talvez até faria isso se tivesse filhos?

    – É.

    – Mas que na época, parecia como?

    – Nossa… parecia… sei lá… era algo muito ruim. Eu sentia como se fosse perder o meu lugar na casa sabe?

    – Filho único não?

    – É… coisas de filho único.

    – Será que estas emoções ainda precisam ser associadas com aqueles eventos?

    – Pois é… agora que eu vi isso.

     

    É comum termos emoções que não gostamos ou que desejamos evitar. Nossa percepção sobre as emoções e o julgamento que fazemos de nós ao senti-las muitas vezes tem origens profundas e antigas. É importante tentar relembrar de algumas dessas origens para verificar se elas, ainda hoje, permanecem válidas.

    Emoções são eventos pontuais. Elas tem começo, meio e fim. Em geral, uma emoção não dura mais do que um minuto. Sentimentos são diferentes e podem durar mais, pois envolvem a cognição. Assim, somos capazes de relembrar um evento e sentir a mesma emoção que sentimos no momento. Além desta distinção temporal, temos outra que é muito importante: a avaliação da emoção. Como as emoções estão sempre vinculadas à um contexto e a nossa capacidade de lidar com este contexto e com a emoção em si, nós tendemos a avaliar as alterações físicas e psicológicas que temos durante o momento da emoção.

    É assim que dizemos, por exemplo: “não gosto de sentir raiva”, ou que julgamos: “a tristeza é negativa”. Em geral, se perguntamos o “porque” desta avaliação, a pessoa não fala da emoção em si, mas sim de algo relacionado à ela: “quando fico com raiva, eu explodo com as pessoas”; “se eu fico triste fico sem energia para fazer o que eu preciso”. Em geral, tratamos das respostas emocionais, ou seja, da reação comportamental que temos e não da emoção em si. Isso existe, mas são raras as pessoas que refletem acerca das alterações fisiológicas das emoções.

    Muitas emoções são julgadas muito cedo na vida. Tendemos a não dar importância para as “promessas” que fazemos quando crianças ou pré adolescentes, mas elas tem muito valor. Quando alguém diz “nunca mais quero sentir isso”, tenta, de todas as formas evitar aquela emoção. Cria formas de se ver, ver o mundo e as pessoas para validar seu ponto de vista. Esta promessa, no entanto, a faz ver a realidade de forma deturpada. Alguém que diga: não vou mais sentir tristeza, por exemplo, nunca se permitirá comover, sentir a dor da perda e talvez termine nunca tendo bons relacionamentos, pois esta é uma forma de evitar a emoção.

    Porém, muitas dessas decisões são tomadas por falta de poder de resposta. Quando uma criança de 7 anos diz que nunca mais vai querer sentir raiva, os motivos que a levam para esta decisão são aqueles disponíveis à ela naquele momento. Talvez lhe falte perspectiva, experiência ou até competência para lidar com alguma situação. Em meu consultório constantemente vejo as pessoas se dizendo: “nossa, até hoje estou reagindo à isso?”. A questão é que quando a promessa ou meta é estabelecida, em algum momento ela precisa ser desfeita, senão continua atuando. E então temos um adulto de 50 anos se esquivando da vida por uma decisão que ele não aprovaria de forma alguma nos dias de hoje, mas aos 10 anos, lhe parecia muito adequada.

    Fazer uma “limpeza” destes tipos de decisões é algo fundamental para a saúde psíquica e emocional. Ao longo da vida precisamos de repostas para lidar com as várias situações que nos aparecem. Essas serão dadas através dos recursos que temos disponíveis naquele momento. A questão é que mais tarde, essas respostas podem ter alto custo emocional e psicológico e precisamos nos “atualizar”. A permissão para olharmos para nossas decisões passadas e retirá-las do rol de decisões importantes é fundamental, ter em mente que sempre podemos rever uma escolha é uma decisão que leva a sabedoria.

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