• 14 de dezembro de 2020

    A “terapia não verbal”

    – Eu não sei o que falar hoje.

    – Entendo. Então, apenas perceba o seu corpo. Preste atenção em suas tensões, calor, onde está a sua atenção.

    – Certo.

    – Isso, perceba que existe um movimento no ombro esquerdo, um suave desconforto talvez?

    – Sim.

    – Perceba isso, deixe este desconforto guiar um movimento. Apenas perceba.

    – Eu me lembro da minha infância… me lembro de uma situação em que meu pai pegou no meu ombro.

    – Que situação era esta?

    – Ele queria que eu visse um cachorro que foi atropelado… eu não queria ver…

     

    Embora a psicoterapia, assim como a psicologia como um todo, tenha se construído em torno da fala verbal, é possível – e muitas vezes necessário – saber como “ouvir” os ritmos e movimentos de outros músculos do corpo.

    Para entender o que tem a ver uma tensão muscular com determinado conteúdo psíquico, é importante compreender a relação mente-corpo. Entendemos como mente algo imaterial, desligado do corpo físico, porém a verdade é outra. (Aqui cabe um comentário breve, existe a percepção dualista, na qual a alma é desligada do corpo físico e a mente é parte desta alma. Existem neurocientistas que defendem esta hipótese, porém, aqui falo advogo sobre outro ponto de vista).

    Conteúdos psíquicos não existem sem correntes elétricas passando por neurônios, a raiva que sentimos “só de pensar”, não fica no “mundo das ideias” de Platão, ele é encarnado em impulsos neuroelétricos que vão até a nossa musculatura. Ocorre que conteúdos psíquicos e emocionais não foram feitos para ficarem num mundo das ideias. A função do pensamento nos humanos é a ação. A maior arma de nossa espécie é conseguir pensar em como agir, porém todo pensamento se estrutura em torno do movimento.

    Não é algo que nos ensinam na escola, mas pensamos para nos movimentar melhor. Porque organizar a viagem? Para que o movimento ocorra com mais eficiência. Assim sendo, tudo aquilo que pensamos e sentimos, busca uma expressão muscular. Logo os conteúdos psíquicos possuem uma relação estreita com a musculatura, tanto a estriada esquelética (músculos da vontade) como o bíceps ou músculos lisos como os órgãos internos. É possível até dizer que os conteúdos psíquicos são movimento.

    A forma pela qual alguém se movimenta não é apenas biomecânica, é biomecânica com emoções. Quando pensamos em algo nosso corpo reage e esta reação é possível de ser vista e trabalhada. Prestar atenção ao movimento que o corpo quer fazer, por exemplo, é um ótimo exercício para tomar consciência das emoções e sobre como determinado conteúdo nos toca. O moveimento de se encolher, ou fechar a garganta, ou ainda tensionar o pescoço para baixo, são sinais que podem ser lidos.

    A leitura é uma parte do processo, ainda é possível fazer mais que isso. Após “lermos” o movimento, também podemos inferir sobre ele, tomar dele o conteúdo e criar novas formas de ação. O trabalho com o corpo é muito forte porque afeta diretamente as emoções. Ele pode até não ter um conteúdo verbal claro num primeiro momento, mas isso não é necessário. É possível aprender a lidar apenas com o sensível e realizar um trabalho psicoterápico profundo.

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