• 30 de dezembro de 2020

    Sozinho sou outra pessoa

    – E daí quando estou sozinho eu não faço isso.

    – Por isso tem buscado ficar só?

    – Sim. Eu não sou uma pessoa tão boa em grupo.

    – Você é a mesma pessoa em ambas situações.

    – Mas como? Se eu mudo tanto?

    – Não, continua o mesmo.

    – Mas porque eu faço uma coisa sozinho e outra em grupo?

    – Essa é uma boa pergunta. O que, quando você está em grupo, lhe faz ter atitudes tão diferentes?

    – Talvez eu queira atenção ou me sentir importante?

    – Pode ser, agora, percebe que isso é algo que é seu e não “de você sozinho”?

    – Sim… é verdade.

     

    Muitas pessoas confundem “ser” com “agir”. Entendem, que se na presença de outras pessoas tem uma atitude diferente daquela que tem ao estarem sós (ou vice versa), “mudam”, “são outra pessoa”. É importante aprender a reconhecer que somos um, o que varia é nosso comportamento à medida em que nos relacionamos com diferentes estímulos e contextos.

    A confusão entre comportamento e identidade é muito comum. Ouvimos o tempo todo “não parecia eu”. Tendemos a fundir a identidade e os comportamentos, embora se tratem de elementos diferentes. Esta fusão traz alguns problemas, como por exemplo, a clássica percepção de “se eu fizer isso, não serei eu”, muito usada como defesa em um processo de terapia. O eu é mais amplo que os comportamentos, a questão é se consigo perceber-me capaz de vários comportamentos, estando identificado com vários papéis ou não, se consigo apenas me ver identificado com poucos papéis.

    A identidade tem a ver com uma imagem com a qual me identifico, algo que aprendo a chamar de “eu”. O comportamento é diferente, está no campo das competências e envolve algo que consigo ou não fazer. Assim sendo a diferença é grande, embora, obviamente, estas duas definições se relacionem. É comum esperarmos determinados comportamentos das pessoas, mas não porque elas são quem são e sim porque se comportam como se comportam.

    No que tange ao comportamento dentro e fora de um grupo, ocorre o mesmo. Na presença de outras pessoas é comum assumirmos uma determinada atitude. De posse desta atitude tendemos a nos permitir ou não determinados comportamentos. Por exemplo, se, ao estar em um grupo, me coloco no lugar de ser aquele que irá manter o grupo unido, terei a tendência de agir de acordo com este papel. Porém, apenas me permito ou busco este papel por questões pessoais que antecedem o grupo.

    Neste caso, por exemplo, posso ter nascido em uma família em que a união é supervalorizada, portanto, tento manter todos unidos sempre. Porém, posso ter vindo de uma família no extremo oposto: muito desunida, motivo pelo qual pretendo manter meus amigos próximos. Ou ainda posso acreditar que preciso ser o líder de todos os grupos que participo e, portanto, devo manter este unido. O “eu sozinho”, leva isso para o grupo e vive isso lá. É capaz, então de portar-se de várias maneiras que não usa quando está só, porque neste “contexto”, não assume o mesmo papel.

    Porém o comportamento está lá “disponível” para ser usado. Em outras palavras, se fazemos ou não algo em grupo, é porque temos este comportamento de alguma maneira internalizado em nosso repertório. Com isso se torna possível usá-lo em outros contextos sem a necessidade de dizer que “somos outra pessoa”, por “agir” de uma forma ou de outra. Somos a mesma pessoa, com uma capacidade de assumir papéis muito maior do que pensamos e isso nos assusta às vezes, porém, nada mais é do que o reflexo de nossa imensa capacidade de se adaptar.

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