• 25 de janeiro de 2021

    Porque olhar para a dor?

     

    – É difícil isso… não me sinto bem.

    – Sim, eu sei, é difícil mesmo.

    – Mas porque eu tenho que fazer isso?

    – Não tem, é uma escolha.

    – Porque eu escolheria isso? Ficar olhando a minha dor?

    – Não sei, porque?

    – Pois é, não me faz sentido.

    – E qual o sentido que faz em não olhar para ela?

    – Também não sei direito.

    – O fato de não olhar não significa que não dói sabe?

    – Pior que sei…

     

    Tendemos a evitar a dor. É instintivo, podemos dizer, que, diante de algo doloroso nos retiramos. Porém, existem dores e dores. Para algumas a fuga é, sem dúvida, o melhor remédio. Para outras, temos que olhar e ver. Porque se não o fizermos, em primeiro lugar não resolvermos nada e em segundo, não para de doer.

    Quando falamos em algo que “dói”, em geral, nos focamos na sensação dolorosa e não nos sentimentos que seguem junto com esta dor. Nenhuma dor emocional segue sem algum sentimento, pode ser tristeza, raiva, mágoa, angústia, medo, inveja, ciúmes, arrependimento ou outras ainda, mas elas sempre estão presentes. Contudo, nem sempre se fazem aparentes logo. Já vi vários casos em que apenas uma sensação de dor grande se apresenta, o sentimento surge apenas depois de certo tempo.

    E porque ficar suportando essa dor toda? Justamente porque em algum momento a emoção surge e, com ela, também é possível acessar aquilo que causa a dor. Em terapia não olhamos para a dor por masoquismo de parte do cliente ou sadismo de parte do terapeuta, mas, sim, para identificar aquilo que vem junto com a dor e nos guia em direção à uma atitude terapêutica. A dor emocional, assim como a física é um sinal de que algo não está bem, de que algum “tecido” foi avariado. Quando olhamos a dor, podemos ver o que aconteceu e onde.

    O “dano” é em nossa auto estima, confiança, sentimento de pertencimento, merecimento ou ainda em alguma competência que não adquirimos? O que precisamos fazer com isso então? O olhar para a dor é uma das formas de perceber isso. A sensação da dor é importante também. Usualmente queremos apenas sair de perto da dor, porém sentir a dor é uma forma prática de realizarmos o quanto algumas atitudes são danosas para nós.

    Assim sendo, não colocamos a mão em chapa quente porque isso dói, sabemos do dano potencial e evitamos isso, ou usamos uma luva para manipular a chapa quente, nos cuidamos. O mesmo vale para a dor de adentrar em uma relação tóxica, cultivar pensamentos pessimistas sobre si e seu desempenho ou evitar o confronto diante de algo que nos é importante. Tudo isso dói, mas se negarmos a dor, vamos continuar sendo feridos “sem perceber”, ou melhor, sem reagir.

    E então a pessoa diz que “do nada” está se sentindo deprimida, ou que não entende os motivos que levaram à isso. Este é um padrão muito comum de negação de várias dores e de várias necessidades emocionais. Negar não significa que a necessidade some ou que você não sofra “danos psíquicos” com isso. Você continua se machucando se você negar sua dor e, com o tempo, ela se transforma em algo grande. Assim, olhar para a dor é tomar consciência de como se cuidar e esse é o motivo pelo qual fazemos isso em terapia. Você pode fazer isso sempre, porque, ao buscar solução para isso, sempre fará algo bom para si.

    Abraço

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