• 12 de fevereiro de 2021

    Independência e autonomia

    – Eu não posso pedir a ajuda deles.

    – Porque?

    – Porque eu preciso fazer isso sozinho!

    – Hum… o que é importante em fazer isso sozinho?

    – Preciso me provar entende?

    – Claro que sim. E você entende o que quer provar?

    – Que posso fazer sozinho, sem eles!

    – Não, esta é a circunstância… o que de fato você quer provar?

    – Não entendo.

    – Vamos imaginar que eles morreram… pronto. Sem pai e sem mãe. E aí, o que você vai “provar”?

    – Hum… seria bem diferente… eu não teria eles…

    – Exato, que é o que você quer…

    – Eu não sei o que ia querer provar…

     

    Muitas pessoas confundem ser independente com não poder contar com a ajuda de terceiros. A independência, nesse sentido, é encarada como “the self made person”, a pessoa feita por si mesma. Porém, embora os movimentos individuais sejam importantes, ninguém é uma ilha, sempre tem outros envolvidos na nossa “independência”.

    O termo autonomia, reflete essa noção. Autonomia é a capacidade de usar os seus recursos em busca dos seus propósitos e finalidades. A confusão se dá porque geralmente as pessoas se colocam em uma guerra pessoal contra a família para buscarem sua independência ao invés de simplesmente se certificarem de que são, de fato, autônomas. O fato de se perceberem endividadas com a família pelos anos de dedicação, em geral, faz muitas pessoas sentirem-se culpadas em desejar sair de casa, muitas ao invés de lidar com a culpa, projetam ela na família e ficam com raiva dos familiares por “cobrarem” fidelidade deles.

    Aprender a fazer por si só, não envolve o fato de não contar com ajuda. Entender que a autonomia trata da maneira pela qual estabelecemos nossas relações e usamos nossas forças é fundamental. É como em um jogo em equipe: é inegável que cada um precisa saber fazer a sua parte, ao mesmo tempo, é apenas uma parte, o restante do time não pode ficar imobilizado enquanto apenas um age. A vida funciona assim, se de um lado sou um grande gerente, de outro tem pessoas que executam o trabalho. Se de um lado sou um grande vendedor é porque também existem compradores.

    A autonomia, lida com as competências pessoais. É necessário saber vender, jogar ou gerenciar. Mas sabemos os limites de cada uma dessas tarefas e de nossas competências. O “independente” quer se acreditar capaz de tudo sozinho. Como dizem no futebol: cobra o escanteio, cabeceia e ainda defende o gol. Não é viável alguém se creditar a força e perícia para ser tudo ao mesmo tempo. Se eu for o produtor do carro, vendedor e comprador, na verdade estou apenas montando um carro para eu mesmo usar. Ninguém é uma ilha.

    Em geral o sentimento de dívida e culpa se estabelece nas relações em que o desejo de independência surge. Para não se sentir “devedor” da família, a pessoa projeta uma imagem muito poderosa na qual ela não precisa de mais ninguém, então caso perca a família, não sentirá nenhum problema. A independência é um desejo narcísico e infantil, que visa a fuga da frustração, do medo de separação e dívida. Se a pessoa, por outro lado encontra respostas em que não é independente, mas, apenas grata de tudo o que lhe foi feito, a autonomia pode surgir de forma mais clara.

    O problema é justamente este, aceitar a “dívida”, no sentido de reconhecer o que foi feito. Aceitar a dor da separação no sentido de que é uma separação mesmo e entender que mesmo que você tenha ótimos planos, eles podem não dar certo, então você começa de novo, ou seja, lida com a frustração no sentido de te manter em pé. Estas são atitudes fundamentais no desenvolvimento da autonomia, pois cuida da pessoa e das relações da pessoas sem dar crédito demais e nem de menos para nenhum elemento.

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