• 15 de fevereiro de 2021

    Se tornar um “filho adulto”

    – E até hoje eu tenho raiva dos meus pais por isso sabe?

    – Sim. É difícil mesmo não?

    – Sim.

    – Mas me diga, eles te ensinaram isso quando criança certo?

    – É.

    – E o que te faz, até hoje, sabendo que isso não te ajuda, manter essa atitude?

    – Não sei! É por isso que eu estou tentando me livrar desse negócio!

    – Você consegue dizer aos seus pais: agora sigo do meu jeito?

    – Dizer isso para eles, você diz?

    – Sim. Como se eles estivesse aqui na sua frente.

    – Não sei… me sinto meio estranho em dizer isso.

     

    Os pais nos educam no começo da vida, somos os “filhos pequenos”. Porém, com o passar do tempo, também aprendemos com outras pessoas e situações. Assumir este novo conhecimento é começar a tornar-se um “filho adulto”. Mas nem sempre isso é fácil.

    São vários desafios para passarmos de uma condição de muita dependência em relação à nossos pais para uma posição de maturidade diante deles. O ditado que diz que os pais sempre veem seus filhos como crianças, esquece de dizer que muitos filhos também se portam como crianças diante dos pais. A manutenção desta imagem mental paralisa o processo de crescimento da relação entre pai e filho, mantendo ambos sempre no mesmo patamar. Qual o problema com isso? É porque a vida se desenvolve e as relações também precisam se desenvolver para que ela seja vivida em plenitude.

    Tornar-se um filho adulto, no entanto, não significa dizer “não” para os pais ou fingir não precisar mais da ajuda deles. Pelo contrário. Um dos primeiros passos é aprender a ser grato por aquilo que recebemos. Aqui muitas pessoas se ressentem por não terem tido aquilo que julgavam precisar ou por terem sofrido com seus pais. Sempre herdamos algo de nossos genitores que é com o que criamos nossas vidas. Esta gratidão possui um sentido mais profundo do que agradecer por coisas específicas é o desenvolvimento de um sentimento amplo de gratidão pela própria vida.

    Embora isso possa parecer piegas, não é. Pesquisas sobre gratidão mostram que quando conseguimos sentir esta emoção nos desenvolvemos mais e ficamos mais tranquilos, a prevenção de depressão, por exemplo, passa pelo aprendizado desta emoção. No que tange a tornar-se um filho adulto, a gratidão é importante porque é o reconhecimento de que temos algo com o que trabalhar nossa vida. A maior parte das pessoas passa a vida culpando os pais pelo que não recebeu sem perceber que isso as mantém como crianças pequenas esperando os pais voltarem no passado e mudarem tudo, isso não vai acontecer.

    O segundo passo, pode ser pensado em relação à este. Se já tenho algo para viver a minha vida, posso analisar o que recebi e ver como eu quero lidar com isso. Adultos fazem isso: analisam seus recursos, buscam mais caso precisem e usam aquilo que possuem da melhor maneira que lhes convém. Esta atitude envolve um olhar mais amplo para nossa educação, focando na intenção ao invés de focar nos comportamentos. Assim posso manter algumas intenções que meus pais me passaram e realizar isso de uma maneira diferente, que condiz mais com minha percepção de mundo.

    Por fim, é interessante perceber que o filho adulto também se coloca como responsável por sua vida. O movimento não é de afastar-se dos pais, mas de aproximar-se de seus desejos pessoais. A expressão “sair de casa” é interessante, pois foca em afastar-se do lar, isso não o tornará adulto. Ir buscar o seu novo lar é o movimento que o adulto faz. Ele não “sai de casa”, isso é fácil, ir construir uma nova casa é mais difícil e é onde entendemos quem busca por sua autonomia e quem quer apenas ser um adolescente rebelde.

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