• 3 de março de 2021

    Os dias passam e nada acontece

    – Mas é que daí… fica aquela coisa assim, parada…

    – Sim.

    – E eu não sei direito o que fazer.

    – Exatamente.

    – Daí o tempo passa e não acontece nada sabe?

    – Claro.

    – Pois é! Eu não quero me sentir assim.

    – Você precisa disso.

    – Nossa, não quero!

     

    O tédio, como dizem alguns filósofos, é uma invenção Moderna. O ato de sentir-se mal, inquieto e ansioso com a perspectiva de não ter nada para fazer é algo que nasce e se aprofunda com a Modernidade. Ao mesmo tempo, no tédio é que se torna possível olhar para uma pergunta difícil: o que eu quero?

    Temos, na pessoa atarefada, que trabalha, malha, vai à vários eventos, estuda, namora, cuida dos filhos e nunca tem tempo livre na agenda a imagem do sucesso. Não apenas de forma financeira e profissional: acreditamos que ter muita coisa para fazer é um sucesso pessoal. E ao mesmo tempo, nas conversas (raras) com os vizinhos, reclamamos: não temos tempo para nada! Este é um sentimento compartilhado por milhões de pessoas hoje no mundo, porém a alternativa saudável, que seria o tédio nunca é tida como uma possibilidade.

    O sentimento de tédio envolve uma sensação incômoda de que algo precisaria estar acontecendo, mas não está. Nunca se sabe o que é este algo que deveria estar ocorrendo, até porque, na maior parte dos casos não está faltando nenhuma atividade. Tomar o tédio como uma invenção moderna, significa compreender que a partir da Modernidade e da revolução industrial é que se aprofundou a noção de que estar “satisfeito de atividades”, é um erro que nos levará inevitavelmente ao fracasso.

    Antes disso, períodos de contemplação, ao longo do dia, onde “não se fazia nada”, eram não apenas um hábito da população, como algo visto com muito bons olhos. Afinal é na reflexão que surgem e se aprofundam muitas ideias, é neste período em que conseguimos, de fato, absorver (e digerir) conhecimentos. Antes, os nobres não realizavam trabalho braçal, pois sua função era refletir e contemplar, ou seja, era deles esta esfera mais sublime das atividades humanas. Lhes cabia o ato reflexivo e não o suor laboral.

    Porém, hoje não queremos o tédio porque ele nos indica que precisamos refletir. Só que não queremos isso. Queremos alguém que nos diga o que, como e quando fazer para que possamos “gastar” menos tempo pensando e mais tempo agindo. O sentimento de que “nada acontece”, é positivo no sentido de que as vezes nada há para acontecer e isso significa: agora é hora de refletir sobre sua vida. Contemplar e pensar são atividades de longo prazo e ritmo lento, precisam cozinhar em fogo brando e não serem fervidas na rapidez das microondas.

    Aceitar o tédio é abrir-se para a possibilidade da reflexão. Porém, boa parte de nós tem um contato tão escasso com isso, que não conseguimos entender nem o que temos para refletir. A noção de deixar o sentimento de tédio nos guiar parece estranha e contra intuitiva. Porém aqueles que sabem se entregar à este sentimento, desfrutam de uma profundidade jamais atingida pelas pessoas atarefadas demais. A pressa Moderna é um sinal, também, do desejo de fugir da angústia que a pergunta: o que eu quero? nos traz. Mas isso é tema de reflexão, e aí, vai tirar um tempinho para isso?

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