• 19 de março de 2021

    Queria não me importar

    – Esta situação é muito difícil para mim.

    – Sim, eu sei. O que você quer trabalhar sobre essa situação?

    – Eu gostaria de poder não me importar com isso, sabe?

    – Sim, imagino. Qual seria a consequência disso?

    – Eu não estaria mal desse jeito.

    – Sim, e o que mais você “não estaria”?

    – Não entendi.

    – Por exemplo, será que é possível não se importar apenas com a situação e continuar se importando com as pessoas envolvidas?

    – Acho que não… porque eu só me importo com a situação porque me importo com elas.

    – Precisamente e você acredita que seria bom para você não se importar com elas?

    – Bem, eu não ia sofrer isso ia?

    – Não, mas também não teria essas relações, teria?

    – É verdade…

     

    O desejo de ignorar algo parte do suposto de que se eu ignorasse, não sofreria. Portanto, não trata de um desejo genuíno em não se importar com algo, mas sim em não sentir a dor emocional. A esquiva emocional, no entanto, não traz consequências boas à longo prazo, fazendo os problemas aumentarem ao invés de diminuírem.

    O ato de ignorar só pode ocorrer verdadeiramente quando a pessoa nem sequer se atenta aos fatos. Ou seja, só ignoramos algo quando não sabemos dele, quando, verdadeiramente ele nem sequer chegou à nossa consciência ou percepção. A partir do momento que percebemos algo e temos consciência disso, produzimos algum tipo de sentimento ou sensação. Tentar “ignorar” é a busca de reprimir o sentimento ou sensação e moderar o comportamento com base nessa supressão. Porém isso apenas dobra o trabalho da pessoa: ela sente algo e precisa fingir que sente outra coisa.

    O ponto, como disse acima, é a tentativa de suprimir emoções. Quando não queremos nos importar com algo que nos importamos, é porque sentimos algo desagradável com isso. Porém ir em direção da emoção é exatamente aquilo que vai nos ajudar na situação. As emoções nos trazem informações sobre a nossa relação com aquilo que estamos vivendo, com base nisso é que é possível encontrar possíveis soluções para as situações pelas quais passamos.

    Aprender a se importar de uma maneira nova, por exemplo, ou, então, aprender a ter novos comportamentos em relação aquilo ou aqueles com quem nos importamos é uma forma de lidar com a situação. Muitas pessoas, por exemplo, acreditam que se elas se importam, elas tem que “resolver a situação”. Muitas vezes não nos é possível resolver uma situação mesmo que nos importemos muito com ela. Nesse caso é necessário aprender a reagir de uma outra maneira, reconhecendo nossos limites.

    Neste tipo de caso, podemos pensar: o que eu posso fazer já que não posso resolver a situação? Talvez seja possível, simplesmente, mostrar empatia com ela – e muitas vezes isso é mais que suficiente. O ato de nos importarmos significa que algo é importante para nós de alguma maneira. Assim sendo também é interessante se perguntar de que maneira aquilo que lhe incomoda é importante para você. É comum que algo tenha sido importante e não seja mais, porém, pela história acabamos mantendo algo como importante para nós.

    Por fim, muitas vezes, a solução para algo que nos incomoda é aprender a nos frustrarmos e decepcionarmos. É interessante que muitas pessoas, especialmente em relações, tentam fazer com que o outro mude ao invés de se frustrar. A frustração especialmente quando é expressa de forma adequada pode ser um “antídoto” muito melhor que a tentativa de mudança do outro. Porque ela cessa a “luta para fazer o outro mudar” e acessa a realidade do que a relação realmente é capaz de sustentar. Com isso a relação fica mais real e os ajustes possíveis podem ocorrer.

     

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