• 29 de março de 2021

    Sentindo emoções

    – Mas está difícil sabe? Quer dizer, já entendi o que fazer, mas na hora…

    – O que ocorre na hora?

    – Bem, eu sinto lá a ansiedade e tento pensar naquilo que falamos aqui.

    – Perfeito. E quando faz isso, qual a sua intenção?

    – Como assim?

    – É algo como: “tudo bem, estou ansioso, deixe-me sentir isso e verificar quais pensamentos estou tendo” ou algo como “droga, estou ansioso, deixa pensar no que vi na terapia para me livrar logo disso”.

    – Mais para o segundo.

    – Ok, então temos que recapitular algumas coisas.

     

    É comum que muitas pessoas sintam experiências emocionais como algo “insuportável, horrível” ou ainda como uma “prova de sua incapacidade em controlar as emoções”. Percepções pejorativas sobre estes sentimentos podem fazer que a pessoa, mesmo em terapia, ainda produza estratégias de evitação, o que não ajuda ou funciona.

    Porque não funciona? Em geral, as estratégias de evitar a emoção não são adequadas para quando a emoção está acontecendo porque ela já está acontecendo. É como você sentir fome e pensar: “droga, não quero sentir fome”. Isso não vai ajudar. Então, é importante que se entenda que quando uma emoção ocorre, tentar agir contra ela, para que a sensação por si só diminua não é algo que  vai te ajudar muito. Até porque as emoções não respondem à comandos voluntários, ou seja, querer que ela passe é como querer que o coração diminua seu ritmo: nossa fisiologia não funciona assim.

    Aprender a sentir a emoção e suportá-la, mesmo que esta seja dolorosa é algo fundamental para toda pessoa que deseja ter uma inteligência emocional maior. Mas Akim, porque vou sentir algo que não gosto? Porque você não tem muita escolha seria a minha primeira resposta. O ponto é: o que você tem para ganhar aprendendo a sentir isso? Em geral a resposta é: nada. Mas é sempre uma resposta que está inserida dentro dos preconceitos que a pessoa tem em relação à emoção em si e ao que significa para ela sentir aquela emoção.

    Não queremos, por exemplo, sentir dor emocional ou angústia. Mas a pergunta é: para que serve a dor? Ela sempre tem uma função protetiva. Colocamos a mão na chapa quente, sentimos dor e tiramos a mão de lá. A dor aponta para aquilo que está sendo ferido em nós, a angústia para aquilo que precisa ser olhado. Se fazemos isso, lidamos com o “tema” da dor. As emoções funcionam todas assim, elas apontam para algo. Se sustentamos a emoção, conseguimos ver este algo, se não deixamos isso de lado e a emoção virá novamente tentar nos mostrar isso em outro momento.

    Aprender a sentir emoções significa, em primeiro lugar, dominar nosso pensamentos sobre elas. Qualquer pensamento que diga algo na direção de que é ruim ou errado sentir determinada emoção é prejudicial para nós. As tentativas de evitar a dor também. “Ah, mas então eu só fico lá parado sentindo”? Porque não? O que poderia acontecer se você fizesse isso? Aqui temos uma crença de que se a pessoa fizer isso estará “perdendo tempo”, ou “será subjulgada pela emoção”, “não vai aguentar”. Mas isso não é verdade, em geral o que nos prejudica é nossa resposta emocional que deseja suprimir a emoção e não a emoção em si.

    Aprender a sentir as emoções nos ensina que elas não nos matam, não nos controlam e que, se sustentamos o estado emocional, o tema por detrás da emoção se torna mais claro. Muitas vezes precisamos primeiro chorar para depois ver o motivo do choro, gritar para depois ver o que nos causa raiva, e somente nos permitindo sentir isso é que esta informação vem à tona. Quando deixamos isso de lado, ou tentamos suprimir estamos, também minando o nosso processo de desenvolvimento.

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