• 12 de abril de 2021

    Ame o que você odeia em você

    – Eu vi algo em mim que não estou gostando.

    – O que é?

    – Ai… vi que eu sou muito arrogante.

    – É verdade, é mesmo.

    – Pois é… nunca tinha percebido isso.

    – E o que está fazendo com essa percepção?

    – Nossa, estou louco com isso! Não quero ser assim, quero deixar de ser isso.

    – Está brigando contra isso então?

    – Claro!

    – Que pena.

    – Porque?

    – Porque é importante você aceitar isso.

    – Aceitar? Como eu posso aceitar que sou arrogante?

    – Por algum acaso você acha que há algum ser humano sem nenhum defeito?

     

    A busca por um ideal de ego pode ser um caminho para uma vida virtuosa ou o início de uma tortura pessoal. Olhar nossos defeitos e aceitá-los é uma atitude muito difícil, porém fundamental para uma saúde mental saudável.

    A tradição católica nos traz a concepção do “pecado original”. Um dos sentidos dessa concepção é avisar que a natureza do homem é propensa ao bem e ao mal. Ao contrário de uma tradição romântica que crê no homem como um ser “bom” por natureza, a tradição católica reconhece que somo capazes das mais belas e horríveis atitudes. Ela posiciona essa característica no homem como uma condição, ou seja, mostrando que precisamos prestar atenção à todos os nossos atos, pois somos capazes do mal ou do bem à qualquer momento.

    Isso significa que por mais que você busque a virtude, você nunca será “a prova de falhas”. Seu desejo, instinto ou ação poderão pender para o bem ou para o mal (que retrato aqui distante de um sentido religioso). Reconhecer esse potencial como parte de nossa identidade não é tarefa fácil. Porém a necessidade desta tarefa se mostra em sua veracidade. O Holocausto provocado pelos nazistas continha em sua “equipe” pessoas “normais”, que, durante o dia assassinavam judeus e à noite, frequentavam a Igreja.

    O reconhecimento de falhas em nossas atitudes, portanto, não deve ser visto como surpresa. Ficar surpreso com suas falhas nada mais é do arrogância, no sentido de não se perceber capaz de algo errado ou nocivo. O primeiro passo para lidarmos com nossos defeitos é aceitar nossa condição imperfeita e associar isso à nossa identidade. Não significa sofrer por antecipação, mas sim saber-se capaz e, por este motivo, gerar zelo em suas iniciativas.

    O segundo ponto é aceitar ao invés de lutar contra aquilo que percebemos inadequado em nós. Embora possa parecer paradoxal, esta etapa lembra um dito sueco: “me ame quando eu menos merecer, pois é quando mais preciso”. Entender que o homem é capaz do mal é diferente de dizer que ele é mal. Há diferença entre ato e identidade. Assim sendo, quando erramos, é importante olhar para nós e nosso erro, nos identificando como autores do ato e aprender a amar isso que vemos.

    Porque “amar”? A ideia é simples: tendemos a cuidar daquilo que amamos. A maior parte de meus clientes quer deixar de ser preguiçoso, orgulhoso, chato ou qualquer outro “defeito” que lhe caiba. Enquanto percebem este “defeito” neles, tendem a lutar contra quem são, querem amar-se apenas quando forem algo diferente do que são. Esta busca é uma tortura, porque mesmo que “arrumem” a parte “defeituosa”, mais cedo ou mais tarde, hão de encontrar outra. O ciclo, dessa forma, nunca termina.

    Ao amar, a possibilidade de empatia e compreensão se abre. Ao entender o que nos motivou a errar (que muitas vezes pode ser, simplesmente, falta de conhecimento) é possível mudar a natureza de nossa intenção ou o curso de nossas ações. O “amor” nesse caso significa acolher e aceitar nossa natureza imperfeita quando ela aparece. Expulsar nossa imperfeição ou incompletude é algo impossível, pois se trata de nossa condição. Assim sendo a melhor escolha é aquietar-se e acolher. Daí podem nascer mudanças importantes.

    Abraço

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