• 16 de abril de 2021

    O que eu quero e o que eu preciso

    Consumismo1

    – Mas e como você sabe que não é que quero?

    – Eu sei que é o que você quer porque você está dizendo.

    – Então? Então está certo!

    – Porém não é o que você me conta com seu comportamento e muito menos com a maneira que fala disso.

    – E o que eu quero então?

    – Não sei, mas me parece que aquilo que você precisa é outra coisa.

    – Me mostra!

    – Quando você foi lá e ficou com a menina lindinha, foi bom?

    – Não, não foi legal.

    – Mas aqui está você me dizendo que é o que você quer.

    – Sim.

    – E quando ficou só na paquera com aquela outra que, nas suas palavras: “rolou um algo mais”, como foi?

    – Eu nem fiquei com ela!

    – Pois é… nem ficou e passou metade da sessão falando disso…

    – É verdade…

    – Agora você pode querer dar uma de macho e falar que só quer sexo ou ser honesto e ver que quer algo mais… mas isso te dá medo e eu creio que você sabe disso.

     

    Tem aquelas coisas que queremos. Em geral confundimos aquilo que queremos com aquilo que é importante para nós ou que precisamos. Perceber essa diferença é fundamental em um trabalho de mudança e desenvolvimento pessoal.

    Nascemos na cultura do consumidor. Nós temos razão. Os nossos desejos são a coisa mais importante do mundo. Essa perspectiva pode parecer interessante, porém, ela não é realista. Um dito grego, mais antigo fala: “cuidado com o que deseja, pois pode conseguir”. Saímos de uma era que refletia sobre seus desejos, para uma era onde precisamos ser o desejo.

    Assim sendo as pessoas vem ao consultório e “querem” coisas. Vão aos workshops e querem mudanças. Querem que algo mude dentro delas, querem ser diferente de quem são e querem logo. O querer se choca com o dever em um processo de mudança. O querer se choca com a realidade em um processo de mudança. Em alguns casos a pessoas deseja mudanças tão bruscas que o jocoso “nascer de novo” se aplica perfeitamente.

    E é aí que os problemas começam. O problema inicial é e lidar com o real, compreender a diferença entre ilusões de grandeza e necessidade de mudança. Muitas vezes as pessoas não querem mudar, desejam apenas se afastar do medo de não serem como o “modelo” que viram em algum lugar. Elas desejam ser outra coisa que não elas mesmas. Desejam ser como os produtos que compram: completamente adaptados à uma realidade específica.

    Porém, quem trabalha com seres humanos não deve moldá-los para ser tal como um produto de prateleira. Isso é o que eles “querem”, mas não do que precisam, na maior parte das vezes. O que precisamos é nos enxergar como humanos: belos e falhos. Perfeitos em nossa incompletude eterna. Experienciais, momentâneos e ao mesmo tempo duradouros. Humanos e não produtos.

    Quando olhamos para uma demanda, por mais absurda que possa parecer, olhando para o humano que solicita podemos, rapidamente ver o que ele precisa. Não é como se fossemos os “donos da verdade”, mas porque a maneira da pessoa dizer, a ênfase que usa em determinadas palavras, exemplos e toda a comunicação não verbal que vem junto nos informa aquilo que ela realmente precisa. Mesmo que ela fale que quer algo completamente diferente.

    Estar atento ao que precisamos nos coloca em contato com o ser humano que somos. Esta é a parte difícil, pois envolve abrir mão dos ideias de ego maravilhosos e perfeitos que temos. Aquela aura de onipotência se torna distante quando nos vemos tal como somos. Porém, nisso é que reside a verdade que temos. Quando lidamos com o precisamos lidamos com a verdade. Quando nos atentamos ao querer superficial lidamos com a máscara.

    O querer, nesse caso, é superficial. Está envolvido com pensamentos “de curto prazo”, com o imediato. O querer mais profundo, que nasce do contato com nossas necessidades e verdades pessoais é distinto. Ele não é apressado ou ansioso, é certeiro e calmo. Há uma mistura estranha de inquietação e paz quando estamos em contato com nossos desejos profundos, muitas pessoas sentem isso, embora sintam medo justamente pela força que este querer possui.

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