• 5 de maio de 2021

    Porque eu minto para eu mesmo?

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    – E daí terminei o curso por causa disso sabe?

    – “Terminou” o curso? Você desistiu, não foi?

    – Sim, sim… terminei foi jeito de dizer.

    – Hum… (silêncio)

    – É que… sei lá… acho que eu tenho mais coisas para dizer.

    – Diga.

    – Eu terminei com a minha namorada.

    – Ah é? Isso tem algo a ver com ter “terminado” o curso?

    – Tipo… sim… sei lá…

     

    Quantas vezes você já disse algo que sabia que era mentira, mas, ainda assim, precisou dizer? Pior: a mentira não visava enganar ninguém, porque o tema era inócuo, apenas uma forma de mentir para você mesmo? Porque fazemos isso, porque nos enganamos?

    A verdade traz consequências. Nem sempre essas consequências são aquelas que queremos lidar, sabemos lidar ou que, simplesmente, gostaríamos que fossem. Ao contrário do que se diz, nem sempre tememos a verdade, muitas vezes o que é temido são as possíveis consequências dela. Coloco este fato, por perceber nos atendimento que as pessoas mantém a verdade “dentro delas”. Em outras palavras: nós sabemos da verdade, mas não dizemos a verdade.

    Dizer implica em se comprometer. O compromisso com aquilo que falamos (seja verdade ou mentira) é o verdadeiro teste de qualquer convicção. Quando sabemos o que fazer com aquilo que é dito, em geral, é mais fácil assumir a verdade. Quando não sabemos é mais complicado. Quando se teme as consequências, é mais comum ocultar, nos enganar ou mentir.

    A auto imagem também influencia nossa decisão sobre nos enganar. Quando alguém cria para si a auto imagem de uma pessoa inteligente, ela poderá ter dificuldades em dizer que não sabe de algo. Quando confrontada com sua falta de saber, ela poderá criar uma verborréia apenas para enrolar os outros. Esta enrolação é uma forma de mentir para si, pelo fato de não corresponder com a verdade que é: cheguei no limite do meu conhecimento.

    Essa atitude de preferir o conformismo da mentira ao incômodo da verdade envolve uma disposição em auto confrontar-se. É comum que o ser humano se flagre em mentiras auto gestadas. Ter 100% de coerência é algo que está vetado à condição humana de perpétuo ajuste e eterna mudança. Assim sendo há necessidade em conseguir suportar o fato de que não sabemos tudo sobre nós, embora sejamos a única fonte capaz de sabê-lo.

    O auto engano é doloroso não apenas em relação ao conteúdo da mentira que nos contamos e das consequências que ela pode nos trazer. Ela marca nossa pessoa ao nos confrontar com o fato de que não sabemos tudo de nós mesmos. Este fato é muito doloroso e causa temor: se eu não sei tudo de mim, como posso confiar em mim? Essa dúvida é o que nos faz, muitas vezes, mentir para nós mesmos.

    Então, o melhor a fazer em relação ao auto engano é praticar o desapego com a necessidade de estar certo sobre si o tempo todo. Como diz o ditado romano: na guerra, deixe espaço para o infortúnio. Na vida, deixe espaço para descobrir algo sobre você que você nem sequer sonha. Deixe espaço para se encontrar com um pedaço seu que foi deixado para trás ou algum pedaço novo que você ainda desconhece e que já te influencia.

    Esta atividade nos faz um pouco mais humanos em relação à nós mesmos ao deixar de exigir a perfeição. Com isso, podemos reconhecer aquilo que é estranho, obscuros e até mesmo indizível. Esse ato nos faz temer menos ou até mesmo estimular curiosidade em relação à estas partes nossas. Com isso, podemos parar de mentir e nos enganar para começar a nos conhecer.

    Abraço

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