– Eu tinha que ser que nem meu tio.
– O que tem seu tio?
– Ah, ele não leva desaforo para casa. Abriu o bico perto dele, pimba!
– Hum… é do tipo briguento.
– Sim, mas é melhor ser assim que ser que nem eu né?
– Na verdade é quase a mesma coisa… o outro lado da mesma moeda?
– Você está querendo dizer que meu tio não tem boa auto estima que nem eu?
– Sim.
Em nossa cultura tornou-se popular a ideia de que pessoas briguentas tem boa auto estima. Essa ideia é enganosa e revela pouco conhecimento sobre o que é uma boa auto estima assim como porque as pessoas se tornam briguentas.
Em primeiro lugar é importante compreender a natureza do briguento. Há uma diferença entre pessoas briguentas e resilientes. A segunda tem a ver com uma capacidade de persistir frente ao infortúnio, ela “luta” não no sentido de brigar contra alguém, mas de persistir em suas metas. Ela entende que o mundo oferece infortúnios e aceita isso como parte do jogo, sem levar para o lado pessoal.
O briguento, por outro lado, percebe nos infortúnios do mundo uma ofensa ou tentativa de impedi-lo de alcançar aquilo que deseja ou manter o que já tem. Esta percepção o faz reativo perante estes infortúnios, ele tende à levar essas supostas ofensas para o lado pessoal. Quando uso a palavra “supostas”, o faço porque “ser” briguento é uma característica que, em geral, se apega de maneira muito forte à personalidade da pessoa e isso cria certas confusões para ela.
Em consultório vejo os briguentos de definindo como protetores, como vítimas de um mundo que não gosta ou os aceita ou lutadores. O fato é que a pessoa que aceita o briguento como forma de “ser”, se permite ver o mundo como eterna ameaça. Existem várias origens para este fato, porém, ele é comum à todos os briguentos. Uma pessoa briguenta não consegue ver uma crítica apenas como uma crítica, por exemplo, ele a percebe como uma afronta pessoal. Este fato é o que o faz briguento: ele crê que precisa estar o tempo todo lutando contra o mundo porque o mundo está contra ele.
Infelizmente é o que mantém sua auto estima baixa também. Pense em quão deteriorada é a auto estima de uma pessoa que crê que todos os problemas que ocorrem com ela são “pessoais”. Em outras palavras, não é que a fila do banco está grande porque é dia de pagamento, ela está grande porque “eu” vim ao banco. Não é que estão fazendo uma crítica ao meu trabalho assim como fazem com milhões de outras pessoas, estão me criticando para me ferir.
O raciocínio por detrás disso é que valho tão pouco que tenho que me agarrar a única coisa que pode me colocar longe de toda essa guerra: minhas competências. Daí que o briguento é tão ferrenho e confunde-se isso com auto estima. O fato de ele entender que é necessário estar em prontidão o tempo todo porque o mundo quer causar-lhe mal é justamente o motivo de sua baixa auto estima. De tudo o que já li sobre auto estima, a seguinte frase de Branden me parece a mais verdadeira de todas “auto estima é o estado da pessoa que não está em guerra consigo mesma ou com os outros”.
Daí que se o briguento consegue atingir suas metas (e muitas vezes conseguem mesmo) a partir do ponto de vista que precisam lutar contra o mundo porque o mesmo já lhes quer mal, isso pode ser muitas coisas, menos uma boa auto estima. Diferente do persistente que percebe as dificuldades do mundo e até algumas “maldades” do mesmo, porém vê isso como parte do jogo e não como algo estritamente pessoal. É da natureza do mundo oferecer desafios para nós.
Abraço
- Tags:Akim Rohula Neto, Auto Expressão, Auto-estima, conquistas, Emoções, identidade, Mudança, Psicoterapia, Relacionamentos