• 14 de maio de 2021

    Me perdoe, sou quem sou

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    – E porque ele não me aceita como eu sou?

    – Porque ele deveria?

    – Porque ele é meu pai oras!

    – E você aceita a tristeza dele em ver o seu desenvolvimento?

    – Como é que eu posso aceitar que ele fique triste? Eu só estou fazendo o que é melhor para mim!

    – Então você também não reconhece o eu dele. O eu dele está ferido ao ver as suas escolhas.

    – Mas isso não interessa para ele!

    – Se não interessasse, ele não teria ficado triste e se não te interessasse a emoção dele, você não estaria chateado.

    (silêncio)

    – Você ama seu pai?

    – Sim.

    – Porque não lhe diz que sente muito pelo fato das suas escolhas causarem dor nele?

    – Porque eu faria isso?

    – Porque é a sua escolha não é? E essa é uma das consequências que ela está trazendo e os adultos – como você gosta de dizer – são responsáveis pelas consequências de suas escolhas.

     

    Aceitar-se tal como é não se trata apenas de sentimentos de orgulho e mais valia. Ser um indivíduo, nos apresenta situações que podem parecer paradoxais, mas mesmo assim, necessárias.

    Nossa sociedade cultua o mito do rebelde, do quebrador de correntes. Esta noção está diretamente ligada à questão da liberdade, auto estima e individualização. É como se, no Ocidente, para tornar-se adulto, você precisasse se rebelar contra alguma coisa. Se não há rebeldia, não existe indivíduo. Obviamente, existe uma certa parte de verdade nesse discurso, muitas vezes é necessário colocar alguns limites e provocar mudanças em nosso ambiente. Porém, isso não é tudo.

    Outro fator importantíssimo que também se relaciona com as questões de maturidade e individualização e que é notoriamente ignorado por nossa cultura são as lealdades que temos em relação à família de origem. O título deste post, deixa claro um tema tabu hoje em dia: pedir perdão por ser quem se é. Em geral entendemos que precisamos afirmar quem somos e que os outros tem que aceitar quem somos.

    Embora esse discurso soe muito bem de um certo ponto de vista ideológico (quebra correntes), do ponto de vista emocional, nem sempre ele é adequado. Ocorre que muitas pessoas possuem um laço estreito com seus familiares e o desejo de manter boas relações com eles (nada mais natural). Assim, o fato de tornar-se um adulto com identidade própria, muitas vezes, fere esta relação.

    Ao tornar-se um adulto individualizado, mostramos nossas preferências e nossos caminhos individuais. Muitos deles podem ferir as antigas lealdades e padrões de relações que temos com nossas famílias. O status quo da emancipação diz que você não deve se importar com isso e seguir seu caminho, porém, não vejo isso como algo possível em meu consultório. Não creio que seja viável pedir à alguém que nutriu anos de uma relação simplesmente dizer “tchau” e sentir-se muito bem com isso.

    Ao invés de fazer isso, tenho mostrado que as pessoas podem pedir perdão por serem quem são. O processo de maturidade, muitas vezes nos traz desafios estranhos e esse é um deles. Porque não pedir perdão por ser quem se é? Este perdão não significa que seu eu está certo ou errado, portanto, não é uma questão de culpa. O perdão que trago à tona é pedido às lealdades e alianças que foram (sim) quebradas por causa da maturação.

    A frase seria algo como: “Eu sei quem eu sou. Sei que este eu que sou modifica, ou até mesmo causa certa dor e tristeza aos que amo. Por este motivo peço perdão, pela dor que o meu processo lhe traz”. Este perdão é dirigido ao outro e, principalmente para si: “eu me perdoo por estar, com o meu desenvolvimento, causando esta dor”. O motivo do perdão é que ele não visa ferir ao outro, porém, é uma consequência do processo. Assim, pedimos perdão à emoção causada, apenas para confirmar que ela é algo inerente à um processo bom.

    Os carrascos tinham o costume (creio que ainda o tenham) de pedir perdão à vítima. Carrasco é aquela pessoa que lhe trará a morte, porém, não é nada pessoal, ele apenas é o carrasco, esta é a função dele. Olhando de um ponto de vista puramente técnico, ele não precisaria pedir perdão, porém o faz. Porque? Justamente para deixar clara esta linha entre as funções e a pessoa. Ele pede, enquanto função, perdão à pessoa que será morta por ele. Essa delicadeza foi perdida nos dias de hoje.

    E é ela que imagino ser retomada quando digo às pessoas para pedirem perdão por serem quem são. Novamente, vale lembrar que este perdão não nos coloca como certos ou errados. Ele é um perdão da emoção. O indivíduo que sou, pede desculpas as pessoas que amo pela dor e tristeza que o meu processo de ser quem sou lhe causa. Isso não implica em parar o seu processo, pelo contrário, o liberta para de fato vivê-lo.

     

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