• 19 de maio de 2021

    E eu, o que ganho?

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    – Mas Akim, porque eu não saio dessa?

    – Não sei, é uma boa pergunta. O que te faz se manter nisso?

    – Não tem nada para me manter aqui.

    – Exato, por isso estou dizendo que você “se mantém” nisso.

    – Hum, não sei dizer ao certo, está querendo dizer como se eu interpretasse isso de um jeito que me faz ficar?

    – Quase isso. Acho que você tem algum ganho em se manter nessas situações, talvez de forma inconsciente.

     

    Ganho secundários são fonte de muita confusão e dor psíquica. Muitas pessoas mantém rotinas desnecessárias e até mesmo prejudiciais para si por não estarem atentas à esse tema. Compreender nossa motivação é fundamental para compreender nosso comportamento.

    Ganho secundário é um tema que remota ao princípio da psicanálise. Freud já mostrou que as pessoas possuem ganhos em situações que não são favoráveis para elas mesmas. Compreender isso, no entanto, pode ser complicado e até mesmo doloroso. Esse tipo de ganho, em geral, associa-se à percepções infantis ou imaturas da realidade. Compromissos secretos selados anos atrás ou uma interpretação distorcida da realidade que faz a pessoa assumir papeis de maneiras desastrosas.

    Um exemplo clássico é o da pessoa que está sempre reclamando de amigos ou familiares, ao mesmo tempo que nunca os “deixa na mão”. A reclamação, muitas vezes, está coberta de razão e a pessoa mostra argumentos realmente convincentes sobre o motivo de sua angústia. Porém, em muitos casos, a pessoa que reclama não consegue deixar as pessoas de quem reclama tomarem conta de suas vidas. Cria, assim, pessoas dependentes dela.

    Esta dependência é o motivo das reclamações e do desgaste emocional. Ao mesmo tempo é fonte de satisfação secreta. É como quem diz: “viu, eles precisam de mim”. Cria-se uma sensação de auto valor distorcida, visto que está calcada na dependência. Ao mesmo tempo que reclama daquilo que lhe dá trabalho, a pessoa também tem o ganho emocional de ser poderosa e necessária.

    Esta combinação é difícil de ser percebida, visto que, em geral, as pessoas tendem a ficar no superficial (os problemas do dia a dia). Ao dar um passo para dentro de si, no entanto, logo percebem que sua própria auto estima é muito deteriorada. Este é, justamente, o motivo pelo qual se criam relações de dependência e pelo qual a pessoa permanece na relação inadequada: o desejo de aprovação e respeitabilidade do outro.

    Uma dica que costumo oferecer é que o ganho secundário, em geral, aparece junto com sensações de dever. O momento em que a pessoa não quer (ou quer) fazer alguma coisa, mas sente que “precisa” ou “deve”. Estas sensações apontam para o motivo inconsciente que impulsiona o ato. É de se perguntar: o que me faz achar que “preciso” fazer isso, mesmo quando percebo que não quero? É muito comum que pessoas com ganho secundário já tenham a percepção de que há algo errado com seu próprio comportamento, por isso esta dica se faz interessante.

    A questão nunca está localizada em fazer ou não o ato. O problema está relacionado com a motivação do comportamento. Esta motivação cria a expectativa de recompensa que a pessoa quer. Conhecer esta motivação é fundamental para modificar a estrutura de relações que a pessoa cria assim como rever a expectativa que coloca sobre si.

    Abraço

     

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