• 26 de maio de 2021

    Mudar e compensar

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    – Mas eu não quero mais me sentir assim.

    – Eu sei que é ruim sentir esta emoção, porém… o problema não está nela.

    – Está aonde?

    – No que te faz sentir-se assim.

    – E o que me faz sentir isso?

    – Você sabe…

    – Você quer dizer o negócio do enfrentamento de novo?

    – Sim… você está em uma situação na qual precisa se expor e você não gosta disso, tende a se fechar e aí sente-se pressionado. Você está, de fato, porém mais por sua própria reação à situação e menos pela situação em si.

    – É… eu sei… é difícil isso para mim.

    Há um ditado alemão que diz, basicamente, que mudar e melhorar são coisas diferentes. Muitas pessoas quando iniciam um processo de terapia desejam a mudança, mas nem sempre estão conscientes do que isso significa.

    A diferença entre mudança e melhora é enorme, na verdade. A mudança simplesmente significa que um determinado estado foi alterado, nada mais que isso. Se essa alteração traz para o sistema algum benefício ou não é outra avaliação. Nesse sentido, o desejo de muitas pessoas acaba sendo equivocado quanto à sua finalidade. Trocando em miúdos o que quero dizer é que muitos compreender como mudança algo que, na verdade, não será benéfico para eles.

    Um exemplo clássico é com as emoções. O tema mais comum em terapia com relação à uma emoção que a pessoa não sabe lidar muito bem é o desejo de “não sentir” ou de fazer com que a emoção “pare”. Esse desejo representa, sim, uma mudança: se estou sentindo raiva, por exemplo e “paro” de sentir esta emoção, há uma mudança. Porém, o fato é que “parar” a raiva, não resolve a situação que gerou o estado de raiva, portanto, a mudança não é benéfica.

    Outro ponto mal compreendido é o da compensação. Em geral, quando a mudança não é funcional, tendemos a efetuar uma compensação. A compensação não se dá sempre pelo oposto do comportamento, mas sim pelo oposto funcional daquilo que causa o comportamento. Por exemplo, se minha raiva é sentida por não saber me expressar adequadamente, posso ao invés de explodir ter um comportamento de me calar. O que é mantido é a dificuldade na expressão (posso não me expressar adequadamente brigando com todos ou me calando).

    Compensamos nossas dificuldades e não nossos comportamentos. Daí que muitas vezes as pessoas desejam extinguir um comportamento sem se ater à sua motivação em ter aquele comportamento. É possível, porém, é como coloquei acima: uma mudança que não trará benefícios, pelo contrário, irá demandar uma energia grande para gerar o mesmo problema ao final. A pessoas pode até aprender coisas novas e interessantes, porém, mais cedo ou mais tarde o motivo do comportamento irá aparecer novamente.

    Por exemplo: se me acho uma pessoa ruim, feia, incompleta posso buscar me tornar alguém rico, sociável e interessante. Pode-se ter muitas conquistas nesse meio tempo, porém o fato: minha péssima auto imagem, irá se manter e, com isso, meus sentimentos de menosprezo por quem sou podem se manifestar em vários momentos ou naqueles em que a máscara cair. Assim sendo, mais importante do que “mudar” é saber o que e porque mudar. É como na anedota do técnico que cobra R$ 1000 por apertar um parafuso e manda, ao solicitante, a conta descriminando o serviço: “apertar o parafuso” = R$ 1,00; “saber qual parafuso apertar” = R$ 999,00.

    Abraço

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