• 31 de maio de 2021

    Quando a lealdade aprisiona a alma

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    – Eu acabei não indo.

    – Mas porque? Não estava certo que você iria, era um curso que você quis tanto.

    – Pois é… mas depois pensei melhor e resolvi não ir.

    – No que você pensou?

    – Meus pais Akim… eles ficariam tristes comigo fora do país tanto tempo.

    – Certamente, mas eles não podem sentir isso em prol do seu desenvolvimento?

    – Eu não sei… mas acho que não.

     

    Há uma tendência em ser leal à família de origem. A lealdade, porém, nem sempre se manifesta de maneira adequada ou a partir de critérios adequados. Nesses casos, ser leal à quem amamos pode significar ser desleal conosco.

    O tema da lealdade quando se fala em famílias é muito importante. A lealdade nesse contexto nem sempre se trata de uma questão de posicionamento diante de determinadas questão, mas sim de uma ligação afetiva. A lealdade não está expressa naquilo que é dito, mas no que é sentido. É interessante perceber como muitas pessoas agem de maneira agressiva contra um familiar, porém mantém-se leais à ele.

    A manifestação de lealdade pode ocorrer ao concordar com regras implícitas e segui-las de forma cega, cultivar determinados pensamentos, emoções e comportamentos ou ter determinadas preferências. O vínculo que se cria com a família de origem nesse sentido é complexo e envolve diversas camadas da experiência. O sentimento de pertencimento e o medo de perder este lugar são temas comuns quando o assunto é lealdade.

    A lealdade, porém, não deve agir contra as pessoas envolvidas. Quando “provas de lealdade” são exigidas o que ocorre é o aprisionamento das pessoas. Com isso alguns assumem papéis que não querem ou conseguem assumir, outros colocam de lado planos de vida e outros simplesmente esquecem de si. Quando ser leal significa abrir mão de sua vida afim de sustentar uma estrutura familiar, algo está errado.

    O erro ocorre porque a função da família é auxiliar as pessoas a crescerem. Ser o substrato no qual elas poderão florescer e se desenvolver. Quando há uma lealdade sadia, existe respeito pela posição de cada um na família, ao mesmo tempo que existe o reconhecimento da individualidade de cada um e do destino que cabe a cada um. Quando estes reconhecimentos são, de alguma forma, negados, obscurecidos ou refutados temos lealdades disfuncionais.

    Outro ponto é quando uma pessoa determina que será leal de uma maneira inadequada e exige dos outros o mesmo. Um filho, por exemplo, pode querer assumir a responsabilidade pela vida dos pais e ser o “salvador da pátria”. Este filho pode entender que, com isso, estará mostrando a sua lealdade e garantindo seu lugar na família. Este ato, no entanto, é arrogante e pode provocar o inverso do esperado. Os pais podem sentir-se invadidos de alguma maneira e isso criar uma profunda inimizade baseada na falta de aprovação e valorização de ambos os lados.

    Assim é importante refletir se a maneira pela qual escolhemos dar amor realmente se faz necessária na família ou se é adequada. Não cabe aos filhos serem responsáveis pela vida dos pais. Honrar pai mãe é diferente de assumir a vida deles como em uma intervenção militar. Permitir às pessoas serem quem são, por mais doloroso que possa ser é, também, permitir que a vida siga seu fluxo. É mais duro lidar com a realidade do que abandonar nossas fantasias.

    Abraço

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