• 23 de junho de 2021

    Teste de fidelidade

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    – Ela não presta, eu sei.

    – Sim, concordo.

    – Concorda? (diz assustado)

    – Sim… para estar se submetendo à estes testes que você faz… deve estar com péssima auto estima.

    – Como assim?

    – Você mesmo disse que testou ela. Me lembro de uma cliente que disse para o ex namorado: não tenho cara tabuleiro de xadrez para você fazer jogos comigo.

    – Nossa!

    – Pois é.

    – Mas eu tenho que saber se ela fica ou não com outra pessoa.

    – O problema é que você já sabe que ela vai. Apenas está querendo confirmar não é?

    – Não.

    – Então me diga como você vai saber se ela vai ou não?

    – Não sei!

    – Pois é.

    O medo da infidelidade faz com que muitas pessoas façam testes de fidelidade no parceiro. Porém será que estes testes são eficazes ou será que apenas prejudicam a relação?

    O renomado estudo contido no livro “pragmática da comunicação humana” de Paul Watzlavic nos traz um capítulo onde é explorado um tema no mínimo assustador: a profecia que se auto realiza. Trata-se de uma maneira de comunicação na qual criamos os nossos maiores pesadelos, mas, como isso é possível?

    Ocorre que quando tememos algo, desejamos evitar isso, no caso da profecia que se auto realiza a pessoa passa a agir como se a ameaça temida fosse real, ou seja, como se ela já estivesse ocorrendo. Assim sendo, a pessoa não se comporta de maneira adequada às situações, mas sim de maneira defendida contra a ameaça. Com isto, seus comportamentos se tornam fora de contexto e é aí que o problema ocorre.

    Traduzindo isto para o contexto em questão o que ocorre, muitas vezes, é o seguinte: a pessoa insegura determina um “teste” para o conjugue. No entanto, este teste já está fadado ao fracasso, pois a pessoa insegura compreende o resultado (no caso de ser positivo) como “desta vez deu certo”. Portanto, ela fará novamente o “teste”. Isso pelo fato de que ela “já sabe” que está sendo traída, apenas deseja confirmar.

    Estes “testes”, pensando num relacionamento em que não há traição, acabam por se tornar um comportamento inconveniente, chato. Assim enquanto mantém o comportamento inadequado de testar o outro, ela acaba por criar a situação na qual o outro realmente poderá fazer algo errado. A “situação”, no caso, é a destruição da relação. Desconfiar tanto e testar tanto o outro até o ponto em que existe uma exaustão do relacionamento o qual se torna enfadonho e morto, daí para um terceiro entrar é fácil.

    Então, a insegurança se torna reforçada e a pessoa segue sua vida comprovando sua hipótese de que ela (ou ele) são fadados à traição e que as pessoas não são confiáveis. Os testes, na verdade, não servem para muita coisa, em minha experiência clínica eles apenas perpetuam uma auto imagem que a pessoa já tinha e que, na maior parte das vezes, quer confirmar.

    Trágicas são as relações em que um dos conjugues é extremamente fiel e o outro extremamente inseguro, pois o segundo, fará de tudo para comprovar a traição. O fiel, nesse momento, sentir-se-á por demais culpado e a relação seguirá com os dois juntos, mas com o fantasma da traição sempre criando distância entre eles. A relação se mantém, mas com péssima qualidade.

    Abraço

     

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