• 25 de junho de 2021

    Escolhas que evitam escolhas

    Student photo created by wayhomestudio – www.freepik.com

    – Akim eu me decidi!

    – Sobre?

    – Resolvi que vou fazer um intercâmbio.

    – Que ótimo e para que?

    – Bem, para me ajudar a resolver aquelas questões sobre o que vou fazer da minha vida.

    – E como o intercâmbio vai te ajudar?

    – Ah, eu vou ficar uns seis meses fora e daí penso sobre isso.

    – Entendi, vai ficar evitando a questão por mais seis meses, mas, agora, com uma desculpa oficial.

    – Não, não é isso…

    – É claro que é… assuma, é mais fácil

     

    Todos temos escolhas que nos causam medo. Porém, muitas vezes somos craques em nos enganar. Fazemos escolhas para evitar escolher alguma coisa. O engano, no entanto, custa caro e, pior: não resolver o problema.

    Tem aquela piadinha do cúmulo da rebeldia: morar sozinho e fugir de casa. Isso ocorre em meu consultório quase todos os dias. Não é fácil seremos quem desejamos ser. O custo de nossa auto expressão é enfrentar a realidade e as consequências de nossas escolhas. Essas consequências, por vezes nos fazem ter de tomar atitudes as quais nos tiram de nossa zona de conforto, ameaçam nosso status quo e agridem o modelo de mundo que usamos em nosso dia a dia.

    Por causa disso, evitamos algumas escolhas. Deixamos para depois, fingimos que esquecemos ou que não entendemos o que devemos fazer ou simplesmente negamos. Uma outra maneira de evitar essas escolhas é fazendo escolhas que parecem ir de encontro com o problema, mas na verdade evitam. Esta é uma forma de auto engano ou de auto sabotagem.

    A questão é estar atento para a solução do problema. Alguns problemas são mais simples de serem percebidos porque tratam de questões objetivas. O caso que relatei acima, por exemplo, fala de uma pessoa que não quer começar a trabalhar. Resolve, então, tirar 6 meses fora para “pensar”. Visto que “pensar” é o que a pessoa já fazia e não resolveu, os seis meses de pensar a mais não vão ajudar também. O que está em jogo nessa situação é a equifinalidade, ou seja, a compreensão de que existem várias formas de fazer a mesma coisa. A pessoa já passara 6 meses fugindo de sua decisão no Brasil e, agora, desejava passar mais 6 meses fugindo dela fora.

    Alguns temas são mais complicados porque envolvem dinâmicas inconscientes. Assim sendo, o filho que diz: “não quero ser igual ao meu pai”, pode estar, na verdade fugindo de um problema. Não ser igual ao pai não significa ser feliz ou saber o que fazer de sua vida, por exemplo. A negação da figura paterna ou materna não envolve a solução de um dilema interior.

    Pelo contrário, pode mascarar. Muitas vezes o afastamento da figura dos pais é uma forma de evitar demonstrar o amor que se sente por eles. Desejamos nos afastar por vários motivos, mas nunca precisamos nos afastar de alguém que não gostamos. Se a pessoa não nos importa, não há motivo para ir para longe dela. Assim sendo, muitos filhos, ao invés de dizerem, por exemplo: “amo você pai/mãe, o que vocês me fazem me maltrata e não vou mais lidar com isso, deixo os seus problemas com vocês e sigo com os meus”, preferem se afastar deste embate.

    Este afastamento é o tipo de escolha que evita a escolha em termos de dinâmica de relacionamento, que é um tipo mais complexo. A escolha de dizer “não” para os pais e sim para a sua vida ao mesmo tempo que afirma-se o amor é muito difícil e exige coragem porque expõe a pessoa e a coloca como responsável por si, algo que boa parte das pessoas prefere evitar.

    Abraço

     

    Comentários