• 2 de julho de 2021

    Andar para trás?

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    – Akim, estou chateado.

    – Com o que?

    – Não me sinto avançando… acho que estou andando para trás na terapia.

    – O que te faz ter essa percepção?

    – Eu não me sinto bem sempre e tem uns problemas que ainda não se resolveram sabe?

    – Claro, mas será que esses critérios são bons ou apenas mais uma cobrança sua?

    – Então… estava pensando nisso, será que é só cobrança?

    – O que você acha?

     

    É com frequência que ouço meus clientes falando que “retrocederam” na terapia. Porém, em geral, suas explicações para tal não se mostram adequadas. O que definiria, de fato, um “retrocesso”?

    Embora esta seja uma resposta difícil, vou tentar deixar claro alguns critérios pelos quais avalio esta questão. O primeiro elemento que levo em consideração é a curva de aprendizado da pessoa. Avalio os assuntos que são mais simples e mais complexos para ela e o tempo médio com o qual desenvolve o aprendizado em ambas situações. Assim diferencio “retrocesso” de falta de maturidade no aprendizado, ou seja, muitas vezes não atingimos alguns resultados porque ainda não aprendemos bem a fazer diferente.

    Outro ponto é qual o “nível” da mudança no qual a pessoa se situa. Por vezes a pessoa tem o mesmo sintoma porém em uma situação muito mais complexa e/ou em um nível mais profundo. É diferente a pessoa que reclama de ciúmes e projeta toda sua insegurança no conjugue e aquela que, em uma situação onde vê o conjugue falando com alguém sedutor reflete sobre o ciúme e depois conversa com o conjugue. A emoção é a mesma e a insegurança também, porém a atitude é diferente e a reflexão mais profunda.

    Algumas vezes o cliente reclama por estar passando, novamente, por determinada situação ou emoção. Porém, tomou consciência do fato rapidamente e já sabe como agir. Isso é um diferencial que precisa ser levado em consideração. Em terapia não se avalia apenas se você sente a mesma coisa na mesma situação, mas quanto está consciente da emoção, da capacidade de resposta frente à emoção e a situação assim como da relação disso com sua personalidade e história.

    O leitor atento poderá indagar-se, então: com estes critérios dificilmente alguém tem um “retrocesso”. Sim. Em geral o que temos nada mais é que um avanço “lento”. É difícil dizer sobre a velocidade, pois cada um tem um tempo diferente para evoluir  determinadas questões. O que costumo dizer à respeito do “retrocesso” é que o mesmo se dá quando a pessoa “desiste” de si mesma.

    A fuga do seu processo de evolução me parece ser a única opção que pode-se considerar um verdadeiro retrocesso. Uso este critério por já ter trabalhado com vários clientes que fizeram esta opção. Pessoas que vão e voltam de processos de terapia sempre parando no mesmo ponto. O critério, porém, não incide num valor moral, ou seja, a pessoa não é melhor ou pior por fazer esta escolha. O ponto é que quando retornar à terapia, caso o faça, a pessoa terá que refazer todo o trabalho novamente.

    Emoções desprazerosas, repetições e desejo de parar tudo não são em si, sinônimos de retrocessos. Pelo contrário, a terapia traz sempre todos esses fenômenos à tona várias vezes. O importante aprender com eles. Um conselho que dou é não confundir dor, desprazer, desespero e outras emoções “ruins” como sinal de retrocesso mesmo a repetição de comportamentos inadequados não são sinal de retrocesso, uma vez que a percepção da repetição já é um sinal de avanço.

     

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