• 5 de julho de 2021

    Controle

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    – Mas me diga, porque você não para de controlar isso

    – Eu não consigo me soltar…

    – O que te impede?

    – É difícil.

    – O que é difícil em terminar uma relação que já terminou?

    – Eu não acho que esteja pronta.

    – Pode ser, mas ela terminou mesmo assim.

     

    O ato de controlar está associado ao medo. Quanto maior o medo, em geral, maior o desejo pelo controle. O controle não se mantém por sua suposta funcionalidade, mas sim, pela promessa que ele traz: poder.

    Desejar controle significa desejar o poder para fazer o mundo ser da maneira que queremos. Mudar situações, fatos, pessoas e sentimentos fazem parte do repertório de coisas que vejo meus clientes querendo mudar. “Seria tão bom se” é a frase favorita da pessoa que deseja deter controle sobre algum aspecto da natureza.

    O controle nasce do medo. O problema é enfrentar o medo. O controle é uma das maneiras de evitar aquilo que se teme buscando organizar mundo, pessoas, pensamentos, sentimentos afim de que a situação temida não ocorra. O controlador, na verdade foge daquilo que teme que é expor-se.

    Em geral, quem controla tem certa opinião à respeito daquilo que não quer (além do medo). A opinião é sempre contrária à realidade e o desejo do controlador é de que a realidade mude. A dificuldade em aceitar a realidade é que o torna um controlador.  Ao invés de adaptar-se, lidar com a situação e responsabilizar-se por si, ele deseja adaptar seu entorno para que este lhe agrade.

    Dificilmente as pessoas gostam de ser controladas porque, em geral, o controle vai contra a sua expressão natural. O argumento contra isso é a suposta “boa intenção” do controlador. “É para o seu próprio bem”, diz com olhar cuidador. O problema real, no entanto, é que o real desejo da mudança do outro é o incômodo que o controlador sente, daí que sua “boa intenção” é apenas “suposta”.

    A busca em não sentir mais o incômodo recai no desejo de poder. Assim, o controlador passa a buscar maneiras de manipular a realidade na crença de que está fazendo “o melhor para os outros” quando, na verdade, é apenas certa vaidade oriunda da vontade em criar um universo que reflete o que ele entende como um “bom” universo. Esta crença, no entanto, gera a possibilidade de algo que é muito difícil abrir mão.

    No filme “O Dragão Vermelho”, o detetive Will diz que o assassino que a polícia está procurando dificilmente irá parar de matar. Quando interrogado sobre o porque dessa afirmação, ele retruca ao policial que faz a pergunta: “ele acredita que isso o faz um Deus. Você abriria mão disso?” A ilusão de poder contida na ideia de controle é por demais sedutora para se abrir mão. A alternativa: contemplar que o mundo não é do jeito que você gostaria e talvez você sofra por isso, é por demais frustrante.

    Assim, a dificuldade em abrir mão do controle é a dificuldade em abrir mão do poder que ela nos ilude possuir: o de manipular o universo de acordo com nossa vontade. Abrir mão disso, no entanto, é aprender a tornar-se potente para enfrentar as dificuldades do mundo (e ele sempre nos brinda com inúmeras delas). A ilusão da onipotência é apenas isso: uma ilusão, doce ao ser imaginada, porém amarga quando tentamos executá-la. Abrir mão disso é abrir-se para a vida tal como ela é.

    Abraço

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