• 11 de agosto de 2021

    Aquilo que não quero ver

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    – Eu não sei direito o que quero trabalhar hoje.

    – Sabe sim.

    – O que é então?

    – Não sei.

    – Então como sabe que eu sei?

    – Eu sei que você sabe, mas não sei o que é.

    – Como você sabe?

    – Toda vez que você diz isso, olha para aquele lado ali. O que tem ali?

    – Não sei.

    – Então olhe.

    – Hum… não sei se quero olhar.

    – Ali está o tema. Você pode optar em não querer ver, mas ali é onde ele está.

     

    Salvador Minuchin certa vez disse que os primeiro cinco minutos de sessão já dizem tudo o que necessário saber para alguém com ouvidos afiados. Muitas vezes as pessoas já falaram sobre o que é importante, em algumas já até deram a solução, mas permanecem sem querer ver. Porque fechamos os olhos para aquilo que está diante de nós?

    “Ver é crer”, diz o ditado. O problema de ver algo é que torna-se mais difícil negá-lo. Negar um problema ou a sua solução nos afasta de criarmos responsabilidade por ele. Em geral nos mantemos cegos porque de alguma maneira não queremos assumir a responsabilidade em ter visto algo. Soluções são deixadas de lado da mesma forma que problemas e, com isso, não olhamos para o que é importante. Mantemos, assim, dinâmicas neuróticas que nos impedem de sermos felizes e resolver assuntos inacabados.

    Algumas vezes tememos resolver porque sentimos que vamos criar distância das pessoas que amamos. A lealdade à família e o amor cego são, em geral, os temas dominantes quando o assunto é a distância. A lealdade nos faz assumir o destino e problemas de outras pessoas, desta forma, criar distância é um impeditivo de assumir estes fardos. O amor cego propõe que com nosso sacrifício poderemos conseguir a felicidade dos outros, assim sendo, precisamos estar próximos. Porém manter-se cego em relação à isso é justamente o que mantém o problema. Em alguns casos a distância é o que traz a solução e não a proximidade.

    Outras vezes não queremos ver nossa responsabilidade. Neste caso, podemos nos achar pequenos demais, frágeis demais ou, simplesmente, impotentes diante de nossa própria vida. Esta percepção faz com que nosso desejo seja nos afastar da ação. Com isto, no cegamos para percepções e emoções que nos fazem desejar agir, pois isso nos colocaria como responsáveis. Abrimos os olhos para tudo aquilo que nos faz impotentes e frustrados.

    Alguns mantém uma visão tão imaculada de si que não querem ver suas falhas ou a realidade de suas emoções. Não raro as pessoas não querem ver quem são ou como são porque isso conflita com a auto imagem que criaram para si. Quando digo “imaculada”, quero dizer “intocável”. A auto imagem pode ser perniciosa quando não aceita modificações ou atualizações. Aquele que não quer ver a realidade e prefere a ilusão mantém-se sempre distante de si e daquilo que realmente “cura”.

    De forma geral, por fim, não queremos ver “aquilo que sabemos que está lá”. Quando uma pessoa diz “não quero ver”, ela já sabe do que se trata. Mas ver é mais do que crer, ver é comprometer. Ao olhar você se torna “culpado” no sentido de perder a inocência. Você não pode dizer “eu não sabia de nada”. Esta responsabilidade existencial é o que muitos de nós não conseguem dar conta e, por este motivo, terminam por fechar os olhos. Para suas próprias almas.

    Abraço

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