• 16 de agosto de 2021

    O poder do simples

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    – E daí eu até senti vontade de dizer alguma coisa.

    – O que?

    – Que eu me sinto mal quando ela faz aquilo. Que eu me sinto trocado e deixado de lado.

    – Porque não falou?

    – Ah, melhor não, se não ela vai achar que tem muito poder.

    – Ela tem. Porque não ser sincero logo ao invés de ficar sofrendo três vezes.

    – Três?

    – Uma por ver que ela tem poder, outra por se sentir trocado e outra porque dói ficar escondendo as coisas “só para não dar aquele gostinho”.

    – É…

    – Pra que simplificar quando dá para complicar né?

    – É…

     

    As ideias geniais em geral compartilham a característica de serem as mais simples possíveis. Em relacionamentos a simplicidade exerce uma força muito forte, desconhecida pelas pessoas. Atos simples constroem e destroem relações com muita força, como usar isso para melhorar as relações que temos?

    Em primeiro lugar é importante compreender que simplicidade é algo difícil de adquirir. Ela é difícil justamente por ser simples. O que ocorre é que para agir de maneira simples, temos, muitas vezes, que abrir mão de inúmeros pensamentos pré estabelecidos que temos e isso é muto difícil de fazer. Ter a mente aberta é uma característica importante de se desenvolver para este fim junto com auto regulação e percepção. É interessante notar que as estratégias de simplicidade levam muito em conta a relação que a pessoa tem com seu corpo e bem-estar, em geral, elas tomam isso como a base de suas ações.

    Este é o motivo que as tornam simples. Em meu consultório, quanto atendo casais e famílias, isso se mostra de forma clara. Da perspectiva de terapeuta vejo as pessoas discutindo sobre os mais variados temas como arrumar a casa, horários e orçamento. Porém o fato importante é sempre deixado de lado. Pergunto então: o que você sente quando isso ocorre? A pessoa revela uma emoção que na maior parte dos casos é desconhecida pelo conjugue. A partir disso começamos a construir a relação. É algo simples, porém quando ficamos perdidos no mundo de ideias e ideais, a simplicidade não entra.

    Um exercício simples que assusta muitas pessoas é parar na frente do outro e olhá-lo nos olhos. É incrível como as pessoas ficam incomodadas em olhar nos olhos de uma pessoa com quem já estão à 5, 10 ou 30 anos. Porém não é fácil simplesmente olhar nos olhos de alguém. Estar aberto e não temer o que pode emergir desse olhar é um desafio. Este tipo de exercício mostra rapidamente aquilo que sentimos de verdade na relação e, se não resistirmos à essa percepção podemos começar a agir de uma maneira mais honesta conosco e com as pessoas que amamos.

    A simplicidade nas relação quase sempre gira em torno de sentir o que você sente e não aquilo que gostaria de sentir. Refletir sobre a emoção sentida e expressar isso da melhor maneira. Ouço muito no consultório as pessoas dizendo que “fizeram, mas sabia que não tinha como dar certo”, a pergunta óbvia é: porque fez então? A resposta óbvia é: porque não me ouvi. Isso é complicar. Complicar é não ser simples. O contrário ocorre: eu deveria ter dito algo, sabia que eu tinha que ter feito. Porque não fez? Porque achei que não era o momento. Novamente, porque a pessoa não se ouviu.

    Estabelecer o contato com nossa “intuição” é aprender a ouvir-se de maneira a buscar equilíbrio interno. Levar isso para a relação é buscar uma maneira simples de criar e manter uma relação. Quando cada um é capaz de levar aquilo que lhe regula para a relação, e apreciar a maneira do outro fazer a mesma coisa temos uma boa chance de ter uma relação simples, a qual, em geral, é a mais poderosa. Na dúvida, comece pelo simples: olhe para o seu parceiro, veja, sem medo o que surge disso.

    Abraço

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