• 24 de setembro de 2021

    Meu futuro deprimido

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    – E quando penso nisso eu me deprimo.

    – Eu também me deprimiria.

    – Sério?

    – Sim… veja: você se sente mal no presente, quando olha para o futuro continua se vendo mal e ainda pior. Não tem como sair disso não é mesmo?

    (Silêncio) – É mesmo…

    – Que tal se dar outras alternativas?

    – Como, por exemplo?

    – Boa pergunta, como… por exemplo?

    – Eu conseguir trabalho depois de me formar?

    – Perfeito, este é um futuro melhor. Com isso poderia ganhar dinheiro e seria um futuro ainda melhor.

    – É verdade.

    – Qual a sensação de pensar nesse futuro?

    – Melhor que o que faço todos os dias.

     

    Depressão é uma “doença de futuro”, segundo o psicólogo Martin Seligman. Concordo com ele. Em geral os depressivos tendem a olhar o futuro assim como o presente sob um viés negativo e não abandonam esta percepção.

    A depressão é a doença do século. O número de casos de depressão cresce não apenas na população adulta, como em crianças e adolescentes. Não é coincidência que os jovens cada vez mais se percebem sem esperanças para o futuro. Nunca tivemos uma juventude tão desmotivada para “ir em frente” como a de hoje em dia. Embora questões de economia global contribuam para este cenário, elas não o explicam por completo e nem o justificam.

    Ocorre que durante as guerras mundiais os jovens também se encontravam em uma situação social muito ruim. Porém a diferença era que eles acreditavam que lutar valia a pena. Seja para construir um mundo melhor, pela liberdade ou apenas para estar envolvido com algo grande, a luta era vista, por muitos como algo que dava sentido à vida. Hoje, porém, o senso de sentido da vida se encontra cada vez mais distante de nossos jovens e sociedade. A própria ideia de projeto à longo prazo, para alguns é absurda ou ridícula.

    O ponto é: compreender o que podemos fazer para trabalhar com a depressão. Há fatores que não podemos controlar? Sim, porém aqueles que podemos controlar fazem enorme diferença. Um dos mais importantes tem a ver com a maneira pela qual olhamos para o nosso futuro. Quando tratamos o futuro como algo pior ou “tão ruim” quanto o presente aumentamos nossa possibilidade em nos deprimir.

    Porque isso é tão importante? Simples: o ser humano nasce para o futuro. O projeto do corpo nunca é ficar onde está, mas sim mover-se em direção ao próximo estágio. O movimento para o futuro, para o desenvolvimento é o que move nossa mente também. Estamos sempre planejando algo para depois. Assim sendo, quando nos habituamos a criar cenários negativos criamos um paradoxo em nosso cérebro: queremos ir para o futuro, mas não para “este” que temos na mente.

    Este paradoxo, associado à sensação de impotência de mudar este cenário cria o pano de fundo da depressão. Qualquer pessoa fica em estado depressivo com um cenário como este. Porém quando ele é mantido por muito tempo o quadro se torna doença. Ao associar o pensamento negativo do futuro com um pensamento negativo do mundo no futuro e de “eu” no futuro, o quadro depressivo é praticamente certo e potencialmente forte.

    Logo, o primeiro passo pode parecer tolo, mas é importante. Dar-se a oportunidade de pensar em um futuro melhor no qual há coisas melhores no mundo e em si mesmo faz muita diferença. Ao realizar algo em prol da concretização desse cenário e, uma vez atingida a meta, dar-se a oportunidade de celebrá-la a pessoa dá mais um passo em direção à saúde mental.

    Abraço

     

     

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