• 15 de outubro de 2021

    Porque “causa e efeito” é um saber fundamental?

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    – Eu não consigo entender isso Akim.

    – Eu sei, é difícil para você. O que torna essa compreensão difícil?

    – Não sei.

    – Vou dar uma dica: é algo relacionado à como você pensa.

    – Eu sou egoísta demais?

    – Egocêntrico, na verdade. Sim, é isso. De que maneira isso atrapalha o seu pensamento?

    – É aquilo que eu só vejo o que eu quero ver?

    – Sim e não vê aquilo que está na sua frente porque também não quer.

     

    A relação de “causa e efeito” sofreu muito preconceito nos últimos anos. Tida como “ultrapassada” sua importância tanto para o dia a dia, tanto para a vida psíquica precisa ser resgatada.

    Hoje em dia quando se fala em “causa e efeito”, você é tido como ultrapassado apenas por citar este termo. As pessoas estão acostumadas com a tal “física quântica” que diz que não se pode ao certo saber o que causa um determinado fenômeno. Na verdade, nunca conheci uma pessoa que fale sobre física quântica que tenha, de fato, lido sobre física quântica. O que tenho visto é que a compreensão inadequada do fenômeno de “causa e efeito” aliado à uma compreensão ainda pior da física quântica tem levado muitas pessoas ao mesmo lugar que o meu cliente acima: o de um egocentrismo distorcido compreendido como virtude.

    Ocorre que as relações de causa e efeito existem sim e não é piegas ou conservador falar sobre elas. O que se objeta é que nem sempre um determinado comportamento irá fornecer o mesmo resultado. Concordo. Porém, dizer isso não encerra a questão, pelo contrário a torna ainda mais envolvente e interessante. As pessoas, em geral, compreendem que se um comportamento pode oferecer dois resultados então não é possível falar nada sobre ele. Essa compreensão além de demonstrar ignorância em ciência, também demonstra que essa pessoa é extremamente rígida.

    O fato é que nunca analisamos um comportamento por si só. Ele sempre está inserido dentro de um contexto. A compreensão desse contexto é de fundamental importância para compreender as relações de causa e efeito. Nesse sentido é importante entender onde estou tendo um comportamento. É diferente dar um sorriso em uma festa e em um funeral, o sentido é diferente por causa do contexto.

    Outro elemento é a cultura. Tomando o caso do sorriso e do funeral, na cultura Ocidental, o sorriso pode ser compreendido como descaso para com a dor dos enlutados. Já no Oriente, algumas regiões veem a morte como algo bom e festejam, nessa cultura o sorriso na situação de um funeral é comum. A cultura tem um viés regional, como também pode ter um viés familiar. Tenho um amigo para quem funerais são motivo de alegria, ele não é oriental e nem budista, apenas vê a morte de outra maneira.

    Considerando o contexto e a cultura ainda é importante verificar o momento histórico no qual tudo está ocorrendo. O sorriso no funeral dentro do Ocidente pode ser visto como um sinal de posicionamento político dependendo de quem morreu e quando morreu. A recente morte de Fidel Castro motivou muitas festas em cubanos exilados nos EUA, o que demonstra que mesmo no Ocidente é possível sorrir em um contexto de funeral e isso ser aceito (obviamente se algum cubano residente em Cuba sorriu, deve tê-lo feito sob lençóis).

    Portanto, quando um psicólogo, por exemplo, fala em causa e consequência, não está querendo ter uma “visão reducionista” do mundo e do comportamento humano. Pelo contrário, quem realmente compreende o que significa “causa e consequência” sabe da enorme dificuldade em compreender os fatores envolvidos em determinados resultados assim como cada um deles influencia esses resultados.

    Porém, esta percepção enriquece a vida das pessoas que passam a observar o seu contexto de maneira mais atenta e respeitosa. Compreender os elementos que influenciam os resultados daquilo que fazemos nos leva a ter um senso de conexão maior com o mundo e de respeito com o real. Isso é o avesso de uma atitude egocentrada que acredita que o universo se molda de acordo com aquilo que desejamos. Relações criaram o universo, não a imposição de uma vontade egocêntrica que se crê melhor, maior ou mais importante que todas as outras que coexistem com ela.

    Abraço

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