– Mas eu me preocupo.
– Com o que?
– E se eu sair, como que eles vão se virar?
– Não sei, acredito que darão um jeito.
– E se não derem?
– Não darão e terão que lidar com isso.
– Não consigo pensar nisso.
– Porque? Eles não podem passar necessidade?
– Não, imagina! Eu não consigo pensar nisso!
– E você deverá salvá-los? Sempre?
– É o que uma mãe deve fazer Akim!
– E quantos anos mesmo tem seus filhos?
– O mais novo tem 24…
Se uma árvore cair na floresta, ela fará barulho? Se você tem uma tendência egocêntrica, achará que não (afinal não há ninguém lá para ouvir o barulho, certo?). O egocentrismo age tal como esta pergunta: “e se eu não estiver lá, o que será do mundo?”
O egocentrismo aparece de várias maneiras. A mais caricata delas é aquela pessoa que fica braba com o mundo quando as coisas não saem do seu jeito. Mães super protetoras são uma vertente muito próxima da mesma ideia. O fato é que o egocêntrico se crê como uma força vital do universo. A questão é de qual universo estamos falando. Ele pode ser o mundo propriamente dito ou algo mais simples como uma família, empresa ou um casal.
A crença de que ele é fundamental, em geral, se manifesta em relação à sua ausência. O que o mundo, meu esposo, esposa, filho ou a empresa fará sem mim? É a concepção do outro como incapaz de gerir a sua própria vida sem essa pessoa. A ideia de que houve um “antes” praticamente inexiste para o egocêntrico. A pessoa super dedicada em geral tem a tendência a ser egocêntrica ao se crer fundamental.
Este é um egocentrismo mais sutil porque se adapta às normas sociais e culturais de conduta. Quem diria que uma mãe dedicada é, na verdade, uma egocêntrica? É mais “fácil” ver isso nas pessoas mimadas. A sutileza mascara a real necessidade do egocentrado que é desviar a atenção. A crença em ser fundamental, na verdade esconde o medo que essa pessoa tem de ser descartada. Com isso em mente, ela se defende crendo que é importantíssima e que nada poderá substituí-la.
Com isso cria pessoas dependentes ao seu redor. A dependência real ou emocional é uma marca registrada de relações com pessoas egocentradas. Isso porque a dependência de um alimenta o ego mal formado do outro. Esse jogo só traz prejuízos aos dois lados embora seja altamente equilibrado e forte. Pessoas que se creem fundamentais ao outro alimentam pessoas que desejam ser controladas, comandadas por não terem a coragem de assumir suas próprias vidas, por exemplo.
Rompimentos são muito doloroso para o egocêntrico. Quando ele é confrontado com a realidade de que não é fundamental, enfrenta forte dor emocional. Conseguir assumir esta dor e dar o tratamento adequado seria algo que poderia libertar o egocentrado, mas em geral, ele prefere “dar o troco” ou “se reerguer”. Esta é outra marca, achar que tudo é com ele, contra ele ou por ele. É auto importância demais.
Neste sentido é duro confrontar uma pessoa “que se doa aos outros” com seu lado mais obscuro. Esta sombra da necessidade de ser o centro de alguém é infantil e mantém a pessoa em relações e visão de mundo infantil. Tudo o que a pessoa faz ou o que ocorre com ela é superestimado. Nesse sentido, ela se torna dramática. O que traz, também, grande sofrimento, visto que elementos simples do dia a dia como ter ido mal em uma prova soam como grande tragédia para o egocentrado.
Sua ruptura final ocorre quando seu mundo desmorona por qualquer fator. Ao perceber que as coisas permanecem sem ele, pode se libertar ou aprofundar ainda mais a sua dor. “Ingratos”, poderá dizer, o que o conduzirá para a ruína. Uma opção mais saudável seria perceber que o mundo não lhe pertence, assim como não lhe pertence o ônus terrível de ter que fazê-lo girar.
Abraço