• 27 de outubro de 2021

    Dar, receber e a ilusão da comodidade do amor

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    – Akim, o que mais você quer que eu faça?

    – Eu não quero nada. Só estou apontado que aquilo que você tem feito, não está lhe trazendo o que quer. Estou errado nisso?

    – Não, mas… o que eu posso fazer a mais do que eu estou fazendo?

    – Talvez possa fazer “a menos”.

    (silêncio) – O que você quer dizer com isso?

    – Que você faz muito e isso é o problema.

    – Então demonstrar amor é um problema?

    – Quando ele está cego, sim.

    – Como assim cego?

    – Ora, você mesmo quem fala: você não recebe aquilo que precisa, “só se ferra” com as mulheres… e continua “amando” do mesmo jeito. Será que não é hora de rever isso?

    – Nunca pensei nisso.

     

    Nos ensinam que devemos ser bons com nossos semelhantes. Porém, nem sempre que é “bom” se “dá bem”. O que acontece nesse interessante fenômeno dos relacionamentos humanos?

    “A maior coisa que você poderá aprender é amar e ser amado”. Nossa sociedade é muito romântica em relação ao amor. Cremos que ele tudo pode, tudo concerta e tudo sabe. Porém no campo das relações humanas não é bem assim que funciona. Agimos por meio de hábitos, comportamentos, motivados por crenças, desejos, personalidade e necessidades que tornam as relações mais complexas do que simplesmente o amor.

    Um dos erros que vejo muito em consultório está na questão de “dar” e receber. Acreditamos que o amor que damos volta. Simples assim. Se eu lhe der carinho, você me dará carinho: “Do jeito que eu entendo carinho, na proporção, intensidade e forma que eu quero de carinho”. Este é o erro e, ao mesmo tempo, o desejo secreto que carregamos dentro nós. É muito mercadológica a ideia de que receberei amor se der amor e, por este motivo, confunde.

    Ocorre que para criar uma relação na qual eu me sinta amado preciso reconhecer quem o outro é, da forma que é. Não importa quanto amor eu lhe der, ele é quem é e reage como reage. Assim sendo ao me relacionar com uma pessoa mais fria, posso lhe dar todo o amor do mundo, mas a tendência é que ela continue fria e tenda a dar o seu amor para mim da sua forma mais distante. Portanto, se desejo receber carinho no sentido de alguém que me dê colo e faça cafuné, tenho que achar alguém assim.

    O amor dá trabalho, essa é a verdade sobre ele. Ele mais cria problemas do que os resolve. A única “vantagem” adaptativa que ele nos oferece é a motivação para tal. Porém essa motivação não pode ser “cega”, ela tem que ver o que está criando, perceber os limites daquilo que faz, senão será apenas fonte de frustração. O amor também engana no sentido de que cremos que vamos nos realizar nele. Ledo engano, o amor nos traz desafios e não satisfação. Amar é verbo, verbo é ação. Quem não age, não ama.

    Se dou amor, porque faço isso? O que me motiva a fazer isso que estou fazendo? Também não se trata de “dar sem esperar retorno”, mas sim de saber se você quer algo em troca ou não e se o outro tem para lhe oferecer o que você quer. É muito simplista crer que por dar, você tem que receber. Não funciona assim. É preciso saber cobrar, deixar claro as suas necessidades e desejos e mostrar insatisfação quando necessário. Também é importante agradecer, valorizar e reconhecer quando o outro satisfaz algo que é importante para nós.

    Porém o ato de dar algo, em termos de relações humanas, significa, apenas que demos. Se nosso intuito é receber, é importante saber como fazê-lo. Em primeiro lugar, sempre digo: encontre alguém que está disponível para dar. Conheça a pessoa e veja o que ela tem a dar. Não tente criar alguém para você, aceite que as pessoas são como são, não caia na armadilha de “ele(a) vai mudar por amor”. Em terceiro lugar: saiba exatamente o que e porque você quer, sem isso ficará reclamando sem muito sentido. E, por fim, ame, pois se não amar, não irá dar ou receber.

    Abraço

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