• 29 de outubro de 2021

    Eu amo esse lixo que sou

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    – Mas eu quero parar com isso.

    – Quer?

    – Claro, porque não iria querer?

    – Como você teria resolvido a situação da sua prova sem isso?

    – O que isso tem a ver?

    – Responde.

    – Não sei.

    – Tente responder.

    (silêncio longo) – Eu não sei, eu não consigo!

    – Pois é. Fazendo seus dramas, você consegue. Sem dramas, não sabe o que fazer. Percebe o quanto você ganha com isso?

    – Sim.

     

    Porque algumas pessoas parecem, simplesmente, não aceitar que podem ser melhores e estão sempre se menosprezando? Pode ser que elas não consigam deixar de ser tão “ruins” quanto pensam que são.

    Existe algo sobre experiências traumáticas que é pouco divulgado, chamamos de “crescimento pós traumático”. Basicamente, ele é o contrário do Transtorno de Estresse Pós Traumático, pois no caso do crescimento, temos pessoas que se tornam “melhores” ou “mais fortes” depois de passar por um evento traumático. Em outras palavras, o trauma pode nos fazer crescer.

    Outro fenômeno psicológico pouco divulgado é a identificação com a doença. Muitas pessoas que desenvolvem, por exemplo, um quadro depressivo tornam-se identificadas com a doença, ou seja, não dizem mais “tenho depressão”, afirmam: “sou depressivo”. Ser é diferente de estar. Não dizemos “sou tristeza”, mas sim: “estou triste”. Falamos assim porque trata-se de um estado que tem começo, meio e fim. Porém, quando existe a identificação, o estado torna-se permanente porque vira um “ser”.

    Este tipo de atitude frente aos problemas mentais é muito difícil de trabalhar porque a pessoa vem com a queixa da depressão, por exemplo, mas não quer “curar” isso. Ela diz que quer, afirma que deseja sentir-se bem novamente, porém o fato é que ela não dá conta de abandonar os sintomas depressivos. Ela precisa da doença para saber quem é. O mesmo raciocínio vale para baixa auto estima e auto imagem distorcida. Depois de um determinado momento a pessoa realmente crê que é aquilo e, assim sendo, não pode se abandonar.

    É interessante perceber que nesses casos, todas as vezes em que a pessoa chega próxima de uma conclusão ela a invalida. Sempre que tem uma melhora, se sabota afim de mostrar o quão sem esperança ela é. Tornar-se menor e doente é uma maneira de se adaptar à realidade. Este tipo de caso não melhora ao se valorizar, ele rejeita a valorização. A primeira e mais dolorosa percepção que precisam criar é a de que eles “desejam” a doença, pois não saberiam o que fazer sem ela.

    Tornar-se “maior” e mais adaptado é um esforço diferente de tornar-se menor. Ser adulto envolve agir e responsabilizar-se por agir. Tomar a atitude e a ação. Enfrentar e dirigir. É uma atitude mais ativa que é o oposto daquela da doença, mais passiva. De uma forma básica este é o dilema que a pessoa identificada com a parte “ruim”, “feia” ou doente de si tem: o desejo de ser feliz com o medo de enfrentar aquilo que precisa para isso. Esse é o segundo passo, pois apenas quando este medo vem à tona é que ela poderá começar a construir força de verdade.

    Abraço

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