• 12 de novembro de 2021

    “Dois culpados se entendem melhor”

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    – E o que eu faço com ele?

    – Qual o problema com ele?

    – O que eu faço se terminar com ele e ele ficar mal, por exemplo?

    – Qual o problema com isso?

    – Ai Akim, não quero isso.

    – Ninguém quer, mas isso não é algo seu para definir. Consegue deixar isso à encargo dele?

    – Não. Não consigo.

    – Então além de terminar ainda quer “sair por cima” não é?

    – Não sei se é isso.

    – Me parece que é, sabe: “dois culpados se entendem melhor”.

     

    A frase é do terapeuta Bert Hellinger. Embora o trabalho deste autor seja ainda novo para mim, a frase fez perfeito sentido desde a primeira vez em que a li. O sentido tem a ver com as relações onde um é muito bom e o outro muito ruim. Este tipo de relação está fadada à brigas intermináveis e, possivelmente, ao fracasso.

    Porque “dois culpados” se entendem melhor? Em geral, numa relação, ambos cometem erros. Dificilmente em um relacionamento as pessoas são completamente certas de um lado e completamente erradas do outro. Assim sendo, aquele que deseja buscar “inocência” completa, geralmente quer estar num patamar moral maior. Isso dificulta a relação ao invés de ajudar. É muito complicado para uma pessoa “inferior” conversar com uma “superior”.

    “Estar por cima” é perceber-se como alguém “certo”, enquanto o outro está “errado”. Embora seja muito difícil achar alguém que afirme que faz isso, as palavras e atitudes não deixam dúvidas de quando alguém quer estar por cima. É uma atitude de superioridade moral, colocando-se como alguém que detém um saber que o outro não tem ou desdenha. Quando a pessoa precisa desse lugar, ela está querendo, voluntariamente, se afastar da relação.

    Este afastamento se dá porque não é possível conviver com alguém em superioridade, apenas em igualdade. Quando a diferença se instala numa relação começam as brigas pelo poder. A percepção de superioridade é psicológica e emocional. As pessoa se sentem de uma forma ou de outra. A luta pelo poder visa o controle e subordinação. Se um dos conjugues afirma que é inferior ao outro, a relação está fadada ao fracasso. Ou quando se luta avidamente contra isso, afinal de contas, a relação se torna um campo de guerra.

    A questão é que ambos são iguais querendo regalias. Ambos são seres humanos imperfeitos, desejando arrogar-se como detentores de verdades que o outro não pode assumir. Quando se reconhece esta verdade é que se pode ver a relação com mais realismo. Este é importante porque possibilita perceber como cada um contribui para os resultados que a relação está atingindo. Nesse sentido é que Hellinger traz a frase: dois culpados se entendem melhor.

    Uma situação típica é quando um quer terminar a relação, mas deixar o outro “bem”. Isso é desejar estar em superioridade moral. Ora, você quer dar um fim à relação e ainda sair como o mocinho? Porque não afirmar que o término é doloroso e vivenciar isso? Simples, por afirmar isso gera a sensação de culpa, que é natural, mas ao invés de se lidar com isso, a pessoa prefere “ser melhor” e procurar formas de fazer o outro não sofrer. E nessa busca vão-se longos anos tentando convencer ou manipular o parceiro a terminar.

    Quando é possível assumir nossos erros e acertos, podemos compreender que escolhemos pessoas que tem, assim como nós, qualidades e virtudes. Ao conseguirmos aceitar ambas, aproveitar as virtudes e nos defender dos defeitos é que podemos dizer “muito obrigado por tudo”. Nesse momento não é necessário ser superior, apenas humano.

     

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