• 26 de novembro de 2021

    Sobre aquilo que não podemos ver

    – Eu não consigo trabalhar direito com essa ansiedade Akim.

    – Sim, depois do nosso último trabalho ficou claro isso para mim.

    – E o que eu faço então, não tem solução?

    – Bem, a questão é que isso está além de você.

    – Além de mim?

    – Sim, eu acredito que precisamos não apenas trabalhar a sua relação com seu pai e com o trabalho, mas precisamos de seu pai aqui na sessão.

    – Do meu pai?

    – É, ele faz parte desse processo, ficou claro semana passada.

    – É… pensando bem, falei mais dele do que de qualquer outra coisa.

     

    É comum a psicoterapia de alguém “estagnar”, ou seja, o avanço ser interrompido. Cabe aos psicólogos buscarem maneiras de compreender o que ocorreu. Muitas vezes isso pode ser um problema que envolve a relação terapêutica. Em outros casos envolve problemas familiares e, em alguns também envolve problemas que vão além da família de origem de cada um.

    Gosto de perceber o desenvolvimento da psicologia não da maneira tradicional, onde cada linha é uma coisa separada da outra. Percebo os movimentos como complementares. A análise das pessoas é muito importante, o foco no indivíduo e seus problemas alavancou todas as escolas de psicologia e, em última instância, continua sendo o foco dela como um todo. Porém desde o desenvolvimento das terapias sistêmicas, um novo foco emergiu: a família, o grupo, o social. Olhar para o indivíduo sem prestar atenção nesses níveis pode estagnar um processo e não dar a devida atenção à alguns problemas e questões fundamentais.

    A teoria dos sistemas nos mostrou que o sintoma de uma pessoa pode, em muitos casos, ser reflexo de um arranjo da família. Em outras palavras, podemos dizer que a depressão “de uma pessoa” é, na verdade, uma manifestação de um problema da família. É como se ao invés da família resolver um problema, ela criasse um sintoma em uma pessoa. da mesma forma que ocorre em doenças psicossomáticas. O que é fantástico neste tipo de análise é que em alguns casos o sintoma familiar pode se referir à uma geração anterior, por exemplo, o sintoma pode passar de um bisavô à um bisneto e o contato entre essas duas pessoas não é necessário para isso ocorrer.

    Fantástico e perturbador, visto que isso significa que nem sempre podemos resolver sozinhos todos os problemas de nossas vidas. Ou então, pensando de outra maneira: aquilo que trazemos em nossa mente e personalidade nem sempre se refere ao presente imediato, ao que conseguimos ver aqui e agora. Lembro-me de um cliente que, simplesmente, não conseguia sentir-se bem com ele mesmo. Fomos em várias direções, todas furadas. Por fim, indaguei sobre seus avós e bisavós. Ele não tinha muitas informações, porém tinha impressões sobre a família. Em uma de nossas sessões, a partir da observação do comportamento dele e do conteúdo e forma da fala, percebi que havia algo relacionado ao seu lugar na família de origem que não o permitia sentir-se bem.  Quando lhe disse que ele não tinha um lugar próprio, desatou a chorar, depois disse que fazia sentido e não ao mesmo tempo, pois ele sempre foi bem quisto na família. Ao perguntar para os pais sobre alguém que não havia tido lugar, os mesmos lhe contaram de um irmão que faleceu, ele nunca soube dessa história.

    Aquilo que não podemos ver nos afeta. Freud trouxe a ideia de inconsciente, agora nos vemos com a noção de heranças familiares. Explorar esse caminho é, no entanto, entrar em contato com nossas raízes e alma. Não se trata de algo impossível de acessar, mas sim, de algo que precisamos atentar. Sem atenção não é possível ver. Em muitos casos a ajuda se faz necessária, nem sempre conseguimos ver tudo sozinhos, faz parte do jogo que seja assim.

    Abraço

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