• 6 de dezembro de 2021

    Se não posso dizer adeus, não posso voar

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    – Mas sabe… eu não quero mais ficar.

    – Você percebe que não é bom ficar, mas isso é diferente de desejar partir.

    – Tem diferença é?

    – Sim, imagine-se dizendo adeus, indo morar só, como lhe parece?

    – Eu fico meio mal na verdade.

    – Claro, esse é o problema. Você já pode ir, sustenta-se sozinha.

    – Sim… mas é difícil dizer adeus.

     

    Há um preço a ser pago para crescer. Muitos, no entanto, querem crescer sem pagar o preço, acreditam que é um “direito”. Por este motivo muitas que tentam sair  de casa não conseguem. Outros nem sequer conseguem se conectar com a energia do crescimento, e por este motivo mantém-se pequenos. Fatores emocionais, psicológicos e familiares estão por detrás desta dinâmica.

    Um dos fatores que contribui para este cenário é o comodismo. Crescer é uma atitude incômoda, pois nos coloca no limite do nosso conhecimento e competências. A famosa cena da águia que joga seu filhote ninho abaixo revela o que é crescer: enfrentar os requisitos necessários para se manter vivo. Isso incomoda, angustia e nem sempre as pessoas estão prontas para deixar o calor do ninho. Ao comodismo, somam-se pais cada vez mais dependentes dos filhos que não conseguem incentivar o desejo pelo crescimento.

    Outro fator se refere à inteligência emocional. Como já disse, crescer é uma atividade que envolve muitas emoções “negativas” como frustração, ansiedade e angústia. As pessoas que tendem a não conseguir (e/ou querer) lidar com estas emoções não saem de casa. Tornar-se adulto envolve lidar com suas emoções. Suportar estados emocionais contraditórios, saber acessar emoções positivas e lidar com as negativas é uma tarefa que faz parte de “sustentar-se”. Aqueles que se acomodam em lidar com sentimentos de terceiros ao invés dos seus, que sempre precisam de apoio e não querem responsabilizar-se por suas respostas emocionais não saem de casa.

    Algumas pessoas desejam sair, mas não se permitem. Este é outro tipo de dinâmica. Sentimentos de culpa são comuns nesse tipo de situação. É quando a pessoa possui as capacidades para alçar seus vôos, mas sente-se, de alguma maneira, presa à família. Uma dinâmica familiar típica são pais dependentes do papel de pais. O casal com problemas, muitas vezes sobrecarrega a função paternal sobre a marital. Quando os filhos podem alçar vôos tendem a reprimir ou intervir afim de que o filho saia de casa, o desejo deles é não ter que lidar com seus problemas. O filho, de outro lado, assume o papel de protetor dos pais e não sai.

    Cada vez mais típica em nossa cultura, esta dinâmica traz muitos problemas para todos os envolvidos. O filho, termina no papel de pai dos pais, afinal de contas, os protege. Ao mesmo tempo, sente-se deslocado, pois os pais não o obedecem, afinal de contas, são pais. Estes sentem-se cobrados pelos filhos que desejam que eles sejam diferentes, ao mesmo tempo em que sentem medo dos filhos irem embora. A situação vira um cabo de guerra e ninguém consegue direcionar esta energia para algo, de fato, construtivo.

    Ao filho, por fim, cabe dizer adeus. Aprender a deixar os pais com os seus problemas ao invés de buscar resolvê-los. Por incrível que pareça esta é uma atitude humilde, pois o filho se coloca no seu devido lugar e deixa seus pais no deles. Aos pais cabe aprender a dizer adeus. Reconhecer seus problemas e permitir ao filho sair de cena é fundamental para que o casal enquanto marido e mulher possa ter uma chance de se resolver. Por fim, cabe à ambos dizer “eu te amo”. Os pais abençoarem a saída do filho é fundamental ao filho reconhecer e amar os pais tal como são também. Apenas com estes atos este tipo de dinâmica encontra novo equilíbrio.

    Abraço

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