• 2 de abril de 2014

    Pessoa Boa, pessoa má

    – Eu vejo que em todas as minhas relações eu tenho essa relação de dependência Akim.

    – Sim, muito bem, dependente do que você é?

    – Da aprovação dessas pessoas.

    – O que isso significa para você?

    – Que eu sou amado, que não vou sofrer se eles me aprovarem… ou me amarem sabe?

    – Sim. Mas nem sempre você recebe isso deles não é mesmo?

    – É… e eu fico muito triste com isso.

    – Exato, triste com não saber o que?

    – Ah, não sei…

    – Sabe sim… diga lá.

    – De que eu posso me virar sozinha… de que… ai… sei lá: que eu não vou morrer sabe? Quer dizer, eu vou, mas que eu não vou morrer se eles não me aprovarem.

    – Realmente não vai, eles não tem todo esse poder.

    – E ao mesmo tempo eu estou sozinha.

    – É, claro que está, sempre esteve e sempre estará, assim como eu e todos os humanos.

    – Entendo…

    – Gostaria que você pensasse no seu pai e em sua mãe.

    – Ok.

    – Agora faça uma imagem deles na qual eles são bons com você.

    – Ok.

    – Agora, uma na qual eles são ruins com você.

    – Ok.

    – Imagine estas duas imagens, ao mesmo tempo na sua frente, coloque uma do lado da outra o bom de um lado e o ruim de outro de modo que haja um espaço entre elas.

    – Certo.

    – Olhe para estas duas imagens um tempo, levante-se e se coloque entre elas, um pouco à frente de modo a ver ambas as imagens.

    – Ok.

    – Cada lado mostra o que você adora e o que você teme. Entre em contato com isso.

    – Sim… estou sentindo tanto o medo quanto a paz.

    – Ok… sentindo ambos pense: seu medo e sua paz são partes de um mesmo continuum… como ir além desse continuum?

     

     

    Cada um de nós tem que se dar uma resposta para este enigma. Ser capaz de sustentar amor e raiva, medo e paz ao mesmo tempo em relação às mesmas coisas – ou pessoas – é uma das formas de aprender com elas. Stanley Keleman certa vez disse que sustentar emoções ambíguas mostra o quão maduros somos. Concordo com ele. Porque?

    Nunca sentimos somente uma emoção por alguém, num relacionamento nunca sentimos somente uma emoção, sentimos várias. Além de sentirmos várias elas também ocorrem numa ordem “caótica”, ou seja, elas não vem com hora marcada, uma depois da outra obedecendo uma ordem específica, elas ocorrem tal como devem no momento em que são convocadas. Isso não vale apenas para relacionamentos, mas para a vida em sua totalidade.

    Assim sendo aprender a identificar e sentir nossas emoções, compreendê-las, assim como compreender a sua movimentação dentro de nós é um fator fundamental para sabermos sobreviver à elas. Junto com isso somam-se pensamentos, comportamentos, ideias que outras pessoas nos disseram. Por esta razão aprender a administrar estes “devires” é fundamental para uma vida adulta consciente e bem vivida.

    O exercício que descrevi acima é uma das formas de fazer isso.

    Quando pensamos nas pessoas que nos são mais caras e nas relações mais importantes para nós de maneira a contemplar ao mesmo tempo o melhor e o pior que elas possuem estamos dando uma percepção mais rica e mais real ao que é a relação. Nenhuma relação é sempre boa, assim como nenhuma é sempre ruim, nenhuma nos faz sofrer o tempo todo e nenhuma nos faz felizes o tempo todo. Embora possa parecer óbvio, isso é algo difícil de ser aceito na prática.

    O que há entre um pólo e outro? Esta é a pergunta que faço ao cliente.

    O que pode haver no meio daquilo que nos faz bem e mal ao mesmo tempo? A nossa própria dificuldade e, ao mesmo tempo, o nosso potencial para ser desenvolvido. A maldição e a benção amalgamadas em uma só instância, em um só momento. Perceber essa realidade nos coloca de uma outra maneira nas  nossas relações: como portador de um defeito e de uma potencialidade.

    Isso é ambíguo e paradoxal, e essa ambiguidade é real: todo “defeito”, “problema” contém em si uma potencialidade. É ao mesmo tempo ferida e bálsamo, dor e satisfação, paz e dor. Ao nos confrontarmos com essa realidade podemos absorvê-la e parar de temer a sua ambiguidade. A mente ocidental não lida bem com essa ambiguidade, somos altamente avessos à ela, quando sentimos isso buscamos logo pular para um pólo ou para outro razão de muitos de nossos problemas.

    Poder perceber o bom e o ruim da nossa relação com outros é poder perceber o mesmo em nós. Ver a ambivalência nas nossas relações é ver a nossa ambivalência. Enfrentar isso significa aceitar a nossa humanidade ambígua, torta e por esta mesma razão rica. A riqueza vem quando aceitamos a ambivalência e buscamos crescer em relação àquilo que nos leva à ela. A fraqueza e o desespero que podemos sentir ao nos encontrar com ela é, também, a própria fonte da qual nascerá a força que vem desse mesmo conflito.

    Da rejeição pode nascer a aceitação, do medo a tranquilidade e sabedoria, da dependência a individuação. O herói nasce no meio deste fogo cruzado, pois é neste lugar em que suas potencialidades podem emergir e assim, aquilo que mais nos amedronta é o que, por final, nos salva; aquilo que pode nos matar é o que nos dá a vida e aquilo que pensávamos que precisamos destruir é na verdade aquilo que precisamos proteger.

     

    – O medo que eu tenho é de ser rejeitado… de que a minha virtude não seja valorizada… eu passo por isso às vezes, sinto isso. A paz é quando ela o é. Quando sinto que tenho um lugar na relação e que ela não é frágil

    – Muito bem… o que existe no meio disso tudo, onde está aquilo que pode te fazer ir além?

    – Está em perceber… em sentir… que eu não preciso fugir dessas emoções… mas encará-las. Elas são apenas isso sabe… fantasias. A fantasia de que se os outros me valorizarem, tudo estará bem e de que se não o fizerem tudo estará mal… porra… eu não sou apenas isso, posso estar muito mal com todos me aceitando e muito bem sem ninguém me querer…

    – E então…

    – Então… sem entãos… nada garante nada. Eu preciso é parar que querer garantias vindas de fora de mim e viver com o que existe aqui dentro. Dolorido ou não, não importa… tudo passa, mas a experiência do que eu vou fazer com aquilo ficará para sempre em mim… e eu quero me dar experiências interessantes!

     

    E você?…

    Abraço

     

     

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