- Eu estou me cansando já daquele rapaz!
-
Ah é, porque?
-
Oras… eu faço um monte de coisas e ele continua insistindo nesse jeito babaca de ser.
-
Entendo… o que você sente com isso?
-
Me sinto uma otária.
-
E como você lida com esta emoção?
-
Bem… em geral eu ficava meio raivosa e daí continuava querendo fazer ele entrar na minha entende?
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Claro e agora?
-
Agora… eu tenho percebido que é importante para mim ter a companhia de pessoas… mas que eu posso escolher melhor com quem ter esta companhia.
-
Entendo e concordo! Deixa ele um pouco pra lá então?
-
Deixa!
-
Como você se sente ao fazer isso?
-
Muito mais leve e estranhamente mais “dona de mim” sabe?
-
Ô!
A necessidade de controlar está em geral associada ao medo. Faço uma distinção arbitrária entre controlar e administrar quando trabalho com as pessoas para focar duas sensações internas distintas.
A primeira, o controle, está relacionada ao medo de se entregar, me de que as “coisas deem errado”, vontade de que tudo saia do meu jeito – porque se não sair eu não sei o que fazer e tenho medo disso. A rigidez é muito presente, a atenção enorme aos detalhes, a insatisfação constante com qualquer elemento que esteja “saindo do planejado”, a sensação – consciente ou não – de insegurança e a tensão física e emocional.
Controlar significa criar as regras fazer os outros jogarem de acordo com elas. Isso é importante numa linha de produção, por exemplo, porém em uma relação torna-se algo complicado e que destrói os laços. Para que uma pessoa precisa “criar as regras’? Porque não compreende direito as regras que existem, porque teme as pessoas, porque não se sente segura sobre a sua evolução pessoal. Todos estes relatos são o que ouço em consultório quando as pessoas começam a questionar a sua necessidade de controlar.
O problema é que o controle é uma estratégia que à longo prazo é muito custosa de ser mantida e pouco eficaz. Para que a pessoa tenha um controle pleno da situação ela precisa ser dona da situação e esse é o problema. Num casamento o exemplo clássico é o marido inseguro que para controlar a esposa utiliza a questão financeira sendo o provedor da casa. Ora, manter esta estrutura num período de dois anos é uma coisa, manter isso durante 50 anos é outra, ainda mais nos dias de hoje.
Outro exemplo é na relação entre pais e filhos onde um ou ambos os pais precisam que os filhos sejam subalternos e dependentes para que eles sintam-se seguros. Manter este controle além de deteriorar a vida pessoal dos filhos é extremamente custoso no sentido de que os pais envolvem-se em destruir continuamente a livre expressão dos filhos assim como sua capacidade de autonomia. Entretanto, este é o preço do controle, pois para controlar é necessário que tudo fique sempre da mesma maneira, que as regras sejam seguidas sempre não importa o que aconteça.
E esse é o ponto onde controlar torna-se complicado: numa linha de produção, por exemplo, tudo irá sair sempre do mesmo jeito, esta é a natureza daquela atividade. Uma relação, um trabalho e a vida de uma maneira geral não funciona assim, ela está em permanente mutação e evolução. Aquilo que servia antes, não serve mais. Em um exemplo da economia: o Brasil quando saiu da inflação para o plano real teve muitas empresas que faliram porque as regras do jogo mudaram completamente. Elas eram organizadas para lucrar com a inflação, quando a estabilidade veio não conseguiram se estabilizar junto e então faliram.
Refletir sobre isso é aprender a sair do controle. A vida muda, as regras mudam, as situações e pessoas evoluem, assim, como vou, neste novo cenário conseguir aquilo que é importante para mim?
É neste tipo de raciocínio que meus clientes controladores começam a perceber que não precisam controlar o mundo, mas sim administrar as suas necessidades pessoais. O primeiro passo é perceber a ineficiência do controle, além de seu alto custo e da sua inadequação à vida; o segundo passo consiste em perceber quais as suas reais necessidades pessoais e o terceiro em como garantir para você, com as suas atitudes estas necessidades.
A passagem é de controlar o mundo para administrar as suas próprias reações, o seu próprio desejo e as suas necessidades pessoais. Ao assumir a responsabilidade pelo que se deseja a pessoa começa a ser mais competente porque verifica em si e para si o que fazer para conseguir sentir-se bem, daí a necessidade de controlar o mundo diminui e ela fica mais atenta à si. Administrar torna-se algo flexível porque acompanha o processo vital da pessoa e as mudanças em sua percepção de mundo e de si mesma, foca sempre a pessoa e o que ela pode fazer para conseguir aquilo que deseja, não cria regras para os outros, mas sim para a pessoa seguir. A atenção aos detalhes diminui e fica restrita aos que são realmente importantes, as “falhas” passam a ser encaradas como aprendizados e a pessoa torna-se mais leve com isso.
Um outra mudança importante é a relação da pessoa com a sensação de insegurança. No controle esta sensação é tida como inimiga, quando se administra a própria vida ela se torna aliada. Porque? Pelo fato de que a insegurança faz parte de qualquer pessoa de bom senso: visto que o futuro é sempre imprevisível, não se pode ter certeza absoluta de nada, assim sendo um nível mínimo de insegurança faz parte quando nos lançamos em nossos projetos pessoais. Ela, inclusive, ajuda a pessoa a ficar atenta ao que está fazendo e a perceber se os resultados que deseja estão vindo ou não. A insegurança torna-se parte do processo de criar segurança, num continuum insegurança – aprendizado – segurança.
E você o que prefere: manter a ilusão de que você pode controlar um mundo que não é controlável ou aprender a buscar para si a sua paz de espírito?
Abraço
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