• 8 de outubro de 2014

    A importância da raiva

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    • Eu fiz algo muito bom nesta semana.

    • O que foi.

    • Bom, meu pai veio me encher como sempre faz, mas eu lembrei das sessões e consegui lidar com a minha raiva melhor.

    • Opa, que coisa boa, o que você fez?

    • Quando vi que ele simplesmente queria me encher o saco eu me perguntei: preciso me sentir agredido com isso? E me respondi que não.

    • Ótimo.

    • Daí imaginei ele como um colega de colégio querendo me encher sabe e me livrei numa boa.

    • Bom!!

     

     

    A raiva é uma emoção muito importante e complicada de trabalhar. Inicialmente ela possui profundas raízes culturais que estão sempre pregando contra ela e associando a raiva com problemas morais. Junto com isso uma vasta cultura de “extravase sua raiva” foi coletiva e erroneamente divulgada. Estes elementos juntos geram dois tipos de resposta comum na sociedade: a pessoa que guarda a sua raiva à sete chaves e a que vomita ela nos outros sem nenhuma cerimonia. Ambas não ajudam muito a trabalhar com esta emoção.

    Quando sentimos raiva? Imagine uma situação social que envolva um desafio pessoal o qual você se sente completamente competente em resolver, você sente raiva disso? Muito provavelmente não, talvez no máximo você sinta uma indignação se o “desafio” for demasiado chato. Agora, numa  situação em que você se sente desafiado ao ponto de isto lhe parecer uma agressão e você não sabe como se defender, é possível sentir raiva? Muito.

    A raiva, em geral, está associada com este tipo de situação: uma na qual nos percebemos sendo agredidos e não sabemos como nos defender da situação. A resposta da raiva vem em proteção ao organismo acionando nossos mecanismos de luta e fuga para correr para longe do perigo ou tentar neutralizá-lo. Neste ponto encontramos duas questões muito pertinentes para trabalhar com a raiva: estou sendo agredido de fato? Como me defender?

    A primeira pergunta tem a ver com a percepção. Muitas vezes as pessoas levam as coisas à sério demais e o que é uma brincadeira, por exemplo, se transforma num ataque. Outro fenômeno que ocorre muito é quando a pessoa tem medos ou uma auto imagem negativa e algum comentário pode dar a entender que quem fez o comentário está falando sobre os medos da pessoa ou sobre algo que ela própria não gosta em si e isso ser tido como uma ofensa. Nestes casos é importante aprender a flexibilizar os seus próprios limites a fim de não perceber tantas agressões do mundo contra a pessoa.

    Esta primeira pergunta é importantíssima porque é ela quem define se a pessoa precisa se defender ou não. No caso da pessoa compreender que está sendo agredida de alguma maneira de fato é importante passar para a segunda pergunta: como me defendo?

    Defender-se significa manter a sua saúde mental e física frente à um desafio. Neste sentido podemos compreender a pressão do dia a dia como um desafio ao qual precisamos dar uma resposta de defesa. Podemos estar sendo agredidos por nossas relações, pelo ambiente e até mesmo por nossas emoções. Daí que a ideia de “extravasar a raiva” que ficou tão popular não é adequada sempre, muitas vezes extravasar é mostrar que você não sabe, de fato, se defender.

    A ideia fundamental de defender-se como já disse é manter a sua integridade moral, física, emocional e psíquica, assim sendo não envolve necessariamente o comportamento de neutralizar o outro e nem de ter que extravasar a energia da raiva gritando e xingando, por exemplo. O importante é expressar a energia que a raiva nos dá no sentido de alcançar o objetivo de nos defender.

    Neste sentido, a raiva envolve sempre uma reflexão e um aprendizado. Precisamos descobrir uma maneira de defender-nos das agressões que seja útil e saudável para nós. Daí que, ao invés de vomitar nos outros alguma coisa, a raiva bem conduzida envolve, na verdade, um amadurecimento pessoal no sentido de estar mais adaptado para conduzir sua própria vida. E é neste sentido que a raiva, quando guardada, causa um mal muito grande porque impede a pessoa de amadurecer e a mantém com um papel nas suas relações e na sua própria vida muito pequeno. O mesmo ocorre quando ela extravasa sem pensar muito, pois a pessoa também não aprende e, com isso, cria uma falsa imagem de pessoa bem resolvida, mas que, na verdade, sabe apenas afastar as pessoas que lhe trazem desafios evolutivos.

    Agora, para fechar, em defesa do extravasar, existem sim situações em que este tipo de comportamento é necessário. Em geral precisamos dizer aquilo que sentimos para as pessoas afim de posicioná-las a respeito de como o comportamento dela nos afeta. Com isso, no entanto, estamos, também, assumindo um posicionamento e isso é muito importante. Não é apenas o ato de dizer o que sente, mas que isso seja uma tomada de decisão também ou um pedido de mudança de comportamento, mas que mexa na relação e no papel que a pessoa assume na relação.

    Abraço

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