– Eu sei lá o que eu faço…
– O que dá vontade?
– De dar um reset sabe?
– Ô, se sei.
– Mas não dá mais…
– Pois é, que bom que você falou isso.
– Porque?
– Porque até agora você “fazia” isso né? Pelo menos tentava fingir que fazia.
– É… é meio que isso sim…
– Enfrentar esse buraco de “não sei” e realmente tentar responder a pergunta vai ser bom pra ti.
– É… bom, mas como você diz não sei se vai ser prazeroso.
– O prazer, nesse caso o orgulho, vem depois!
Quando as máquinas da revolução industrial penetraram a vida das pessoas comuns, tudo mudou. O ser humano começou a se perceber de maneira diferente assim como pensava o mundo e à si mesmo de forma diferente. O corpo, antes aquilo que nos aproximava do animal, agora era tido como uma “máquina” com “bombas” e “válvulas”. A sociedade precisava organizar suas engrenagens e ser marcada com o tempo de outra máquina: o relógio. O ser que tempo atrás olhava para o horizonte afim de definir a vinda ou não de chuva e pausava suas ações nas estações do ano, agora tinha em sua mesa um calendário e um relógio mostrando como a “máquina humana” deveria funcionar.
Hoje temos outra mudança que é a vida virtual. “Virtual” não se opõe ao real como as pessoas supõe, ele significa, antes, “possibilidade de”, assim a era virtual não é uma era em que o real está de lado, mas sim uma na qual as possibilidades se multiplicam exponencialmente. Falando em termos de relações humanas, posso estar “online”, “offline”, “ocupado” ou fingir estar “offline” quando estou, na verdade, apenas observando quem está online para escolher com quem eu falo (não quero que nenhum desavisado fale comigo hoje).
O que tenho visto nesta era das possibilidades é um fato complicado. Vários pesquisadores já demonstraram que o cérebro humano não suporta muitas escolhas. Em geral, conseguimos lidar com 5 possibilidades, mais do que 7 já é problemático e o cabalístico 9 tem se mostrado o limite para a competência humana. Um experimento que tenho ciência é de colocar tipo de geleia para experimentar num supermercado. Quando confrontados com 3 à 5 geleias as pessoas compravam mais do que com 7 ou 9.
Embora o discurso atual seja em prol da possibilidade de quantidade de escolhas (“um homem tem que ter escolhas) a verdade é que temos um limite que não é respeitado frente à quantidade de escolhas que conseguimos processar. Essa característica da virtualidade (o aumento exponencial da quantidade de escolhas) se confunde de uma maneira perversa com outra: a possibilidade de deletar e resetar as programações das escolhas feitas.
Se você não está satisfeito com as programações ou com a playlist que fez, simplesmente delete, resete para o “default” ou então salve e jogue com as inúmeras outras playlists que já fez e jogou fora. No mundo virtual, isso é possível e tranquilo. Porém, como resetar a nossa vida? Será que podemos, chegando aos 25 ou 30 anos de idade dar um reset e voltar aos 18 para começar tudo de novo? Infelizmente não. Este choque é o que tenho visto em muitas pessoas.
O choque, no entanto, começa mais cedo, de uma maneira invisível pelo jovem que começa a fazer suas escolhas e tem a crença de que se tudo der errado é só começar de novo. Porém sua experiência de “começar de novo” é qual? Apenas a do celular ou dos jogos que jogou. Talvez ele tenha tido um notebook que quebrou e perdeu suas músicas, mas isso é quase tudo.
Mas Akim, você quer dizer que as pessoas não podem começar de novo? Claro que podem! Não apenas podem, como muitas vezes “devem”. O ponto aqui é outro. Enquanto, antes eu tinha que pensar ao colocar uma palavra no papel porque a tinta era definitiva, hoje posso escrever o quanto quiser do jeito que quiser, depois eu deleto e re-escrevo. Embora isso tenha vantagens óbvias como a diminuição do uso de papel e tinta, tem outras que considero nefastas como a preguiça em pensar e planejar.
A falta de necessidade em precisar planejar à longo prazo e de pensar em suas escolhas tem feito as pessoas “irem fazendo”, “seguido o fluxo” como diz a propaganda. A questão é que a falta de planejamento no virtual é facilmente solucionada, mas na vida real não. A possibilidade gera consequências que não serão deletadas, uma delas é o uso do tempo que nunca mais volta e a frustração em ter vivido tanto tempo e percebido, anos depois, que não construiu nada.
O ponto central da minha argumentação é convocar as pessoas para compreenderem que suas vidas não tem reset, não é possível você ficar offline de sua própria vida e recomeçar tudo depois. Refletir sobre o futuro é tão importante quanto agradecer o passado e sentir o presente. A vida não é a quantidade de possibilidades que você tem, mas sim as poucas escolhas que você fez. Frente ao universo enorme de possibilidades que você tem você sempre fará poucas escolhas, porém quantidade não é sinônimo de qualidade e suas “poucas” escolhas podem ser “boas”.
Abraço
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