– Eu não posso fazer isso!
– O que acontece se você não fizer?
– Eu acho que vou estar me defendendo.
– Entendo. O que tem de importante em fazer isso nessa situação?
– Hum… não sei ao certo… eu acho que vou mostrar quem sou.
– E isso é importante de que forma?
– Eu quero que as pessoas saibam quem eu sou e que não podem fazer o que querem comigo.
– Então isso tem a ver com deixar claro seus limites?
– Sim.
– E quais são os seus limites nessa situação? Que tipo de relação você quer realmente criar?
– Não sei, preciso pensar um pouco melhor nisso
Valores são uma parte muito importante de nossa vida psíquica. Quando o comportamento está fundamentado em valores, ele se torna forte. Obviamente, isso tem dois lados: quando o comportamento é funcional, a pessoa se beneficia, quando ele não é, a pessoa perde. Aprender a olhar os valores e saber como usá-los é fundamental para sua saúde mental.
Conhecer um valor pessoal é uma tarefa importante. Muitas pessoas confundem valores com metas, então vamos compreender a diferença. Uma meta é concreta, algo que é perceptível e que tem começo, meio e fim. Mudar de emprego, por exemplo, é uma meta. É algo que tem um fim e é concreto. Os valores são expressos através de metas e comportamentos, porém não se restringem à eles. São “maiores” do que os comportamentos e metas que os expressam. Assim sendo, “mudar de emprego” pode ser apenas a meta que, neste momento, está expressando o valor “crescimento”, por exemplo.
Os valores, em geral, respondem à pergunta: “para que?”. Ou seja, não são voltados ao passado, mas sim ao futuro. O valor é algo que deseja se concretizar, portanto pertence ao que está vindo. Ao perguntar “para que isso é importante?” focamos nos valores. A primeira resposta, nem sempre é o valor, é necessário ir mais além. Quando respondemos esta pergunta várias vezes, chegamos à um ponto no qual precisamos dizer algo como: “bem, é que isso é importante para mim, simples assim”. Neste ponto, em geral, temos o valor. Eles possuem certa lógica, mas não servem à lógica. São escolhidos e não explicados.
Perceber nossos valores, no entanto, é apenas o começo da história. Após isso é importante saber como estamos expressando esses valores. Em muitas situações as pessoas tem valores interessantes, porém ao expressá-los tem comportamentos que levam a pessoa na direção oposta daquilo que deseja criar. “O que faço para expressar este valor?”, “o que faço está me levando em direção ao que quero expressar?”. Estas perguntas lidam com o comportamento, o ato no qual nossos valores se expressam. Se a resposta para a segunda for negativa, hora de mudar o comportamento.
Outra reflexão também é importante: trata dos limites. Ao expressar um valor, muitas vezes precisamos limitar outro. As pessoas acreditam que vão conseguir manter todos os seus valores sendo satisfeitos o tempo todo. Isso é fantasia. Muitas vezes, para conseguirmos dar conta de um, abrimos mão de outro. Isso é saudável. A fluidez segue o ritmo da vida e nem sempre os mesmos valores são importantes na mesma medida. Deixar um valor mais em evidência do que outro, quando este comportamento está alinhado ao crescimento da pessoa é um sinal de sabedoria. Forçar que tudo seja da mesma forma é apenas rigidez.
Por fim, resta compreender que a expressão de um valor também está ligada à um contexto. Assim sendo, a expressão da “liberdade”, por exemplo, quando a pessoa é solteira difere da expressão do mesmo valor quando ela tem uma família (que ela escolhe ter, diga-se de passagem). Quando julgamos a expressão de um valor sem levar em consideração o momento de vida no qual estamos, nos tornamos rígidos e injustos. Assim sendo, é sempre importante lembrar que mesmo os nossos valores mais profundos, relacionam-se com o mundo externo e com a nossa posição neste mundo. Este o desafio final quando se trata de valores pessoais: entender que eles fazem parte do mundo e não estão “além dele”.
Abraço
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