– Mas é que eu não consigo deixar isso de lado.
– E se conseguisse, não sei se seria adequado.
– Porque Akim? Me faz mal lembrar de tudo.
– Eu sei. Porém, ao mesmo tempo, lhe dói porque foi algo importante para você, não?
– Sim.
– Então porque você deveria deixar isso de lado? Porque deveria abrir mão de sua própria história?
– É, faz sentido.
– Sei que lhe dói. Mas esta dor não traz consigo a verdade de quanto isso foi importante e forte?
– Sim.
– Então, talvez, essa seja uma dor que vale a pena sofrer.
A primeira vez que li esta expressão foi no livro de Robert L. Leahy: “Terapia do Esquema Emocional”. A profundidade desta frase é tão grande que, para compreendê-la, precisamos rever nossos valores sobre a vida tal como ela é e sobre o que é estar vivo.
Acreditamos que nascemos para sermos felizes. Isso, porém, apenas reflete o pensamento ocidental dos últimos anos. A felicidade tida enquanto estado permanente de alegria e prazeres é uma construção moderna e está longe de ser o “ideal de vida” de muitos povos do presente e do passado. Este, é o primeiro ponto que precisamos refletir: qual o sentido da vida? Ora, a vida não precisa de sentido. Se dermos ou não um sentido à vida, ela continuará, se dermos ou não um sentido para as plantas, elas continuarão crescendo. Quem precisa de sentido é o “eu”.
Quando se pensa em ser feliz, por incrível que pareça, limitamos a vida, deixamos ela pequena. A vida tida como felicidade é uma vida “menor” porque exclui uma série de importantes eventos. Basta olhar para todas as grandes religiões e filosofias: elas nascem de uma busca, nascem da incompletude e do sofrimento. Todos os grandes mestres iniciam suas jornadas por causa de um incômodo e de uma dor. Sem isso, não haveria religiões ou filosofias. O ponto, então é que uma vida apenas de felicidade seria uma vida insossa, pois não nos chamaria a refletir sobre a própria vida.
O fato é que o mundo sempre muda. Este é o motivo pelo qual temos várias emoções: para dar conta das inúmeras vicissitudes do mundo e sociedade. Nos entristecemos porque coisas terminam, ficamos com raiva porque somos impedidos de algo, nos alegramos quando conquistamos. Todas essas emoções são importantes porque é com a presença de todas elas que conseguimos nos regular no mundo. A função da terapia, por exemplo, não é deixar de sentir alguma emoção, mas sim ajudar a pessoa a se tornar forte o suficiente para sentir e validar todas as emoções.
Neste sentido, o sofrimento deixa de ser visto como algo “ruim”, por se pensar que ele é “oposto” à felicidade e alegria. O sofrimento é parte inerente e importante da vida. Esse sentimento é o que nos faz olhar para aquilo que foi perdido e que foi importante para nós (ninguém sofre por algo inócuo). Assim sendo, “viver uma vida pela qual valha a pena sofrer” é uma frase que nos faz olhar para a vida como algo tão importante que mesmo o sofrimento a faz valer à pena. E o que permite que mesmo com dor avencemos em direção à algo? Nossos valores.
E quando digo isso, não é no sentido de que os valores farão com que a dor vá embora. Não. É no sentido de que os valores darão sentido à dor. E porque dar sentido à dor? Porque não importa o quanto você deseje fugir disso: a vida traz dor. Por este motivo é que é importante atribuir-lhe sentido. O sentido traz a dor para perto e nos faz poder amar o que nos traz dor. Com isso deixamos de lutar contra isso e entendemos a normalidade de sentir-se triste, por exemplo. Isso não significa “dobrar-se”, mas sim aceitá-la.
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